Há muito tempo que Joana estava posta
em sossego. O coração batia sempre ritmado, a um compasso saudável
e controlado. As rotinas diárias eram cumpridas sem entusiasmo, mas
com a dedicação suficiente para que ninguém pudesse acusá-la de
negligência ou preguiça. Mesmo a casa era mantida escrupulosamente
arrumada e limpa.
De entre as rotinas, a ida à
biblioteca do pequeno jardim, logo ao virar da esquina do seu local
de trabalho, era a favorita. Mesmo em pleno Inverno, o abrigo de
vidro grosso permitia-lhe uma leitura tranquila.
Até que uma dia... Um dia, entra pelo
abrigo dentro António José. Homem de grande estatura, cabelo
comprido, grisalho, apanhado num rabo de cavalo, a encimar o rosto
tisnado, marcado por algumas rugas, vestia de couro da cabeça aos
pés. Só depois Joana o ligaria com a moto pesada estacionada no
passeio em frente quase todos os dias. E não é que o homem tropeça,
caindo aparatosamente aos seus pés, interrompendo-lhe a leitura da poesia de Maria Teresa Horta?
“Morrer de amor ao pé da tua boca
(...)”
Estas palavras ainda nos olhos e
António José a levantar-se, na sua frente, tão perto que os seus
rostos quase se tocavam.
Não se sabe o que disseram, nem como
ambos, de tão diferentes, se demoraram em palavras, sorrisos, e num
apertar de mãos a eternizar-se na despedida. Sabe-se, sim, que Joana
se atrasou naquele dia, contrariando a rotina, mas que as tarefas
foram realizadas com tal entusiasmo que estavam prontas muito antes
da hora de saída.
Havia uma menina na varanda, toda ela graça e alegria. Era
uma varanda antiga, numa casa grande, pintada de branco, escancarada
de grandes janelas envidraçadas. Quando o sol vinha e a cobria de beijos, não
havia vidro que não brilhasse, à semelhança dos olhos da menina.
Nem no rigor do Inverno deixavam de se ouvir as gargalhadas
límpidas, percebendo-se, na amurada, o gorro vermelho de lã encimado por um
pompom multicolor.
As árvores, embora a ritmo mais moderado, iam crescendo com
ela (Clarinha, ouvira chamar-lhe) e pareciam inclinar-se para servir-lhe de protecção.
Permitiam-lhe, ainda, ensaiar cantos, em coro com o chilreio do pássaro que,
todos os anos, construía o ninho nesses ramos.
Frondosas, as árvores, fechadas, as vidraças, calado o
pássaro, ausente, Clarinha.
Foram tempos estranhos aos passantes, habituados
que estavam a abrandarem o passo, à escuta.
Até que correu notícia do regresso. O pássaro desatou
num canto tão melodioso e ininterrupto, que era impossível não parar a ouvi-lo.
Ao fundo, uma voz alegre de rapariga, toda ela graça e alegria.
A luz da manhã, crua e enfarruscada, deixava a olho nu a sordidez do lugar que, durante a noite, lhe parecera belo e cálido. A cadeira onde se sentara, com ela ao colo, entre beijos e goles de vinho tinto, devia ter sido abandonada nalguma mudança de casa, contando com três protectores nas suas quatro pernas e revelando ferrugem corroendo as travessas das costas. Do candeeiro, agora apagado, restava a sombra esquálida, contrastando com a luz amarela ainda agora projectada nos amantes enlaçados. Deixou a garrafa vazia escorregar para o cimento marcado pelos milhares de percursos por ali calcorreados. Afinal, ela partira antes do último gole, antes da última carícia.
Levantou-se vagarosamente, a tristeza agarrada à pele como se tivesse sido tomado por um imenso cansaço, um desalento antigo de tanto doer. A ponte estava ali. Debruçou-se nela. O rio corria, impetuoso, formando ondas, galgando pedras.
À medida que a saudade ficava mais funda, ia construindo uma ponte mar adentro, na esperança de que houvesse outra praia, onde outra ponte estivesse a ser construída. Não tardaria e seriam uma só.