quarta-feira, novembro 02, 2016

Refrega

(Carolee Schneemann)

Veio a saudade e mordeu-a. Mastim bicéfalo de presas aguçadas, abriu-lhe o peito, o ventre. Tentou conter o sangue e as vísceras com as mãos, apertando os rasgos profundos, enquanto pontapeava violentamente o monstro. Rangia os dentes na dor furiosa da luta, arquejando e cuspindo palavras incoerentes. Veio-lhe à memória o ritual voodoo de um filme antigo, marioneta empurrada a vontade alheia, cúmplice de um modelo seu distante. Ficou no chão, na refrega da luta, ferida, despida de defesas, na inércia dolorosa que antecede a rendição.

32 comentários:

  1. Consegui ver tudo. As vísceras a saírem,
    o sangue a espalhar-se. A dor.
    A dor que não nos larga.
    Quando ficou no chão, enrolou-se sobre si
    e rendeu-se.
    Já não era mais que dor.

    ResponderEliminar
  2. Essa tua saudade é tão violenta, que ficou bela no final.

    :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sentimentos fortes são característica que me descreve.

      Beijinhos, CC, e obrigada. :)

      Eliminar
  3. É que a saudade, quando ataca com força, é isso mesmo, Maria!

    Muito bom!

    ResponderEliminar
  4. What a beautiful way to end my day . . .
    Mahler's Adagietto, with the maestro himself.
    And wondering what kind of energy it took
    for her to hang from that rope, and create that art.

    You energize me. Thanks for this post.
    A kiss.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. It's a very strong image, indeed. And Mahler strikes us with passion.

      Thank you again, Rick!

      Kisses :)

      Eliminar
  5. A rendição porém não vai acontecer, a saudade atacará vezes sem conta, ela ficará prostrada, ferida em todos os ataques mas depois levanta-se, lambe as feridas e segue.
    Beijinho :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Assim é, GM. Nada derruba o ser humano a não ser a morte.

      Beijos :)

      Eliminar
  6. A saudade não morde
    engole

    Mas se alguém não se rende
    o mastim expele

    ResponderEliminar
  7. Quando a saudade ataca é muito difícil resistir.
    Bjs

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Vai-se matando devagarinho.

      Beijinhos, Pedro :)

      Eliminar
  8. impressionante. ene coisas para dizer,
    só posso dizer o que disse. impressionante.
    acrescento ser Adagietto do Mahler, o que mais
    ouço cá em casa praticamente sempre a tocar.

    baci, Maria

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Viste-a, à saudade?
      (obrigada)

      Beijos, Tristan :)

      Eliminar
  9. falta de ferro... vísceras recomendam-se, carninha vermelha! as melhoras :) beijos Tutu

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Vísceras. Carne. Sangue. Ainda, ternura. :)

      Beijocas, Stormy boy

      Eliminar
  10. Quando a noite cheira a saudade só há vencidos.

    Deixo-te um beijo, Maria. :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Levantem-se os vencidos, então!

      Beijos, Alaska :)

      Eliminar
  11. A saudade tem de facto um poder destrutivo enorme. Vai destruindo de dentro para fora os incautos que se deixam contaminar.
    O Mahler foi muito bem chamado nesta circunstância mas é preciso ter cuidado com os potenciais efeitos sistémicos.
    Bj.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sobreviventes, é o que somos, Agostinho. Saudade? Afoga-se devagarinho, com Mahler ou Beethoven, ou...


      Beijinhos, Agostinho :)

      Eliminar
  12. Há saudades que corroem por dentro, mas nem todas são más. Há também saudades boas, tão boas como o Adagietto, quando encerram a promessa de um reencontro.

    Um beijinho, Maria :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sem dúvida, Miss Smile! ( tão bom, matar saudades tuas)

      Beijos :)

      Eliminar
  13. Li este maravilhoso texto ao som de Mahler. Realmente a saudade é realmente corrosiva. Mas pode ser vencida...
    Uma boa semana.
    Beijos.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O que vale ao ser humano é a sua enorme capacidade de sobrevivência, Graça!

      Beijos e muito obrigada! :)

      Eliminar
  14. Olha... Onde andas?

    Beijos preocupados
    ❤️ ❤️

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pelos sítios do costume. Um cansaço que me entedia. Nada particularmente sério. Talvez seja do Outono a esfriar.

      Beijos, amiga. :)

      Eliminar