Nasceu mulher para desgosto de seu pai, que queria um homem.
"- Que feia!" Observara, sem cuidar dos olhos húmidos da parturiente, cansados das horas de dor e ânsia, mas já apaixonados pela criatura vermelhusca e enrugada que se agitava, num vagido fraco, ao seu lado.
Cedo começou a fugir das bonecas e das loiças de porcelana. Fazia das árvores poiso habitual, dos muros escadas e dos campos pistas de corrida.
Ao final do dia, entrava em casa pé ante pé, tentando esconder os joelhos esfolados e os rasgões na roupa.
O pai, há muito que mantinha um brilho no olhar quando o repousava nela, cúmplice nas desculpas para as escapadelas de maria-rapaz.
Foi crescendo, assim, menina de seu pai.
Desnascia, tantos anos depois. Ouvia-lhe a voz, à sua menina, mas a dele não saía da garganta frágil e os olhos teimavam em não se abrir.
Sabia que chorava pelo tom inseguro com que lhe dizia:
"- Estou aqui, pai! Sou eu, a sua menina! Já pode partir!"
