quarta-feira, março 05, 2014

Who's afraid of the big bad wolf?



Era uma vez uma menina muito, muito bonita que era, pode dizer-se com propriedade, a menina dos olhos de sua mãe e avó. 

Quando fizera 11 anos, a avó tinha-lhe oferecido um casaco vermelho de lã com capuz que lhe ficava tão bem, tão bem, que toda a gente passou a chamá-la de Capucinho Vermelho, que ear como se chamava também uma outra menina muito, muito bonita que havia num conto que a avó lhe contava quando ela era pequena e de que ela gostava tanto, tanto que, à noite, antes de ela adormecer, ainda pedia às vezes à avó para que lho contasse outra vez.

O conto contava a história de uma menina que era comida por um lobo e Capuchinho Vermelho costumava perguntar à avó porque é que a mãe dessa menina não correra a ajudá-la e não matara o lobo e porque é que o pai nem sequer entrava na história.

*Não sei", respondia-lhe a avó. "Foi assim que aprendi. Talvez os pais dela, como os teus, estivessem separados, ou talvez o pai tivesse morrido..."

"Mas a mãe, porque é que a mãe não matou o lobo?", insistia Capuchinho.

"Sei lá, minha querida", dizia a avó encolhendo os ombros cheia de paciência. "Já ninguém se lembra desses pormenores, é uma história muito antiga que ensina às meninas que não devem dar conversa a lobos..."

E a avó recitava-lhe uns versos que terminavam assim:

"Cuidado, meninas, que os lobos de bons modos
são os mais perigosos de todos!"




terça-feira, março 04, 2014

Da Galiza vem um vento bom

(Mehdi Dashti)

"Só a noite é o paraíso: dormen os homes.
Os soños abren las xanelas
e lámbense as feridas nas praias e nas beiras
dos ríos.
Os soños cantan coa gorxa xeada.
Como esclavos, fan tocar os tambores."


Manuel Rivas

segunda-feira, março 03, 2014

Como dois peixes sinuosos


(Lord Frederic Leighton, The fisherman and the syren)

Peceras de amor
    Nuestros cuerpos de peces
    Se deslizan uno al lado del otro.
    Tu piel acuática nada en el sueño
    Junto a la mía
    Y brillan tus escamas en la luz lunar
    Filtrándose por las rendijas.
    Seres traslúcidos flotamos
    Confinados al agua de nuestros alientos confundidos.
    Aletas de piernas y brazos se rozan en la madrugada
    En el oxígeno y el calor
    Que sube de las blancas algas
    Con que nos protegemos del frío.
    En algún momento de la corriente
    Nos encontramos
    Lúcidos peces se acercan a los ojos abiertos
    Peces sinuosos reconociéndose las branquias agitadas.
    Muerdo el anzuelo de tu boca
    Y poco después despierto
    Pierdo la aleta dorsal
    Las extremidades de sirena.

    Gioconda Belli 
     
     

domingo, março 02, 2014

August: Osage County (Um Verão Quente)

"Where are you going, Ma? There's nowhere to go!"
Personagem interpretada por Julia Roberts no filme August: Osage County




Um filme de mulheres.Sobre a família. Sobre os segredos que se tecem, as tensões que poucos deixam transparecer e que explodem como bombas numa guerra de (des)afectos. Fugir? Para onde, se não há para onde? 
Meryl Streep despojada de todos os artifícios. No limite da representação da dor. Julia Roberts, igualmente isenta de sofisticação de imagem mas intensa até à medula! 
Não, não está particularmente "cotado" pelos críticos que atribuem "estrelinhas". Sim, comoveu-me!

sábado, março 01, 2014

(Im) perfeições

 (João Cutileiro)


Sabia-se imperfeita. Assim, vestiu-se de adereços; corpete, meias de renda, écharpe de seda em tons de azul... 
Timidamente, mostrou-se-lhe. Assim adornada parecia-lhe ficar melhor. Ele olhou-a, abraçou-a, beijou-a e começou a despi-la. 
"-Não gostas do meu corpete?" perguntou-lhe.
"-Gosto! Gosto muito! Mas gosto de te ver nua!" respondeu-lhe.
"-Mesmo imperfeita?" retorquiu ela.
"-Por seres imperfeita!" disse-lhe, sorrindo.



Ai, poetisa. Metade Japonesa, Choctaw-Chickasaw, Negra, Irlandesa, Cheyenne do Sul e Comanche.

Florence Anthony (1947-2010) foi uma poetisa e educadora Americana, vencedora do National Book Award, que mudou legalmente o nome para Ai Ogawa.
Ai, descrevia-se como sendo metade Japonesa, Choctaw-Chickasaw, Negra, Irlandesa, Cheyenne do Sul e Comanche.
Ai significa amor, em Japonês.


Conversation

We smile at each other
and I lean back against the wicker couch.
How does it feel to be dead? I say.
You touch my knees with your blue fingers.
And when you open your mouth,
a ball of yellow light falls to the floor
and burns a hole through it.
Don't tell me, I say. I don't want to hear.
Did you ever, you start,
wear a certain kind of dress
and just by accident,
so inconsequential you barely notice it,
your fingers graze that dress
and you hear the sound of a knife cutting paper,
you see it too
and you realize how that image
is simply the extension of another image,
that your own life
is a chain of words
that one day will snap.
Words, you say, young girls in a circle, holding hands,
and beginning to rise heavenward
in their confirmation dresses,
like white helium balloons,
the wreathes of flowers on their heads spinning,
and above all that,
that's where I'm floating,
and that's what it's like
only ten times clearer,
ten times more horrible.
Could anyone alive survive it?


(Alireza Sadreddini)

Sorrimos um para o outro
e eu inclino-me para trás contra o sofá de vime.
Como é a sensação de estar morto? Pergunto.
Tocas nos meus joelhos com os dedos azuis.
E quando abres a boca,
uma bola de luz amarela cai ao chão
e queima-o,  formando um buraco.
Não me contes, digo eu. Não quero ouvir.
Um dia, começas por
usar um certo tipo de vestido
e só por acidente,
tão inconsequente que mal nos apercebemos,
os dedos arranham  ovestido
e ouves o som de uma faca de cortar papel,

vê-lo também
e percebes como a imagem
é simplesmente a extensão de uma outra imagem,
que a tua própria vida
é uma cadeia de palavras
que um dia vai explodir.
Palavras, dizes, jovens num círculo, de mãos dadas,
e começando a subir para o céu
nos seus vestidos de comunhão,
como balões de hélio brancos,
as grinaldas de flores girando sobre a cabeça,
e, acima de tudo isso,
que é onde eu estou a flutuar,
e é assim que isto é
apenas dez vezes mais claro,
dez vezes mais horrível.
Poderia alguém, vivo, sobreviver-lhe?


Tradução de Maria Eu