Havia
anos, Maria Clara tinha entregue o seu coração a Pedro. Era um
coração quase perfeito, não fora a súbita arritmia que o acometia
sempre que na presença dele.
Levara-lho
assim, vermelho vivo e arrítmico, num dia de frio invernoso,
encostando o peito ao dele até que os batimentos se acertassem
naquele peito que não era o seu. Não tardou em descobrir a falta
que lhe fazia, em estando Pedro ausente. Parecia que uma dor muito
funda se aninhava bem ali, no lugar vazio.
Quando,
tempo volvido, lhe bateu um mensageiro à porta com uma encomenda
cuidadosamente embrulhada numa caixa forrada a cetim preto, Maria
Clara percebeu que, rutilando no fundo negro, um coração lívido,
com uma ferida profunda de onde escorria sangue, era o seu.
Dissera-lhe o portador que o homem de quem tomara a caixa lhe pedira
que a informasse que não suportava mais o bater de dois corações
que não tinham o mesmo ritmo.
Levou-o
para o quarto, sentando-se com ele no regaço, hesitando em
retomá-lo, quase como se temesse rejeitá-lo, de tanto que se lhe
estranhara. O implante revelou-se penoso, mas não tardou que um
súbito aconchego lhe consolasse corpo e alma. Afinal, um coração
só pode partilhar-se com alguém que saiba como dois ritmos em
descompasso são predispostos às mais assombrosas melodias.





