Rescendem a mar, a algas, as memórias. Ao tempo em que o Verão
entrava pelos nossos olhos adentrona
areia de uma praia cheia de luz. Eram as horas da languidez absurda, da ternura
e da cegueira absoluta da paixão. Era o tempo dos dias felizes.
Assomou à janela de onde tantas vezes os ouvira chamá-la: Maria! Maria!
Havia ecos de conversas, risos, cantigas, choros... Num dia era menina, brincava nos campos, rebelde, fazendo das árvores casas, navios, aviões, no outro, adolescente sonhadora, livro aberto em horas longas, o coração em sobressalto, ao ritmo das palavras que a faziam adormecer de madrugada, na ânsia de lhes descobrir o fim. Agora, uma mulher a quem marcam finas rugas junto dos olhos, na comisura dos lábios, ainda e sempre de coração aberto às palavras, as dos livros e as que ecoam na casa.
A mulher de calções vermelhos e camisola preta que olha o mar melancolicamente sentirá o olhar, discretamente disfarçado pelo jornal, do homem de calção verde alface?
(imagem daqui) A quantidade de areia que os cinco filhos dos Ferreira de Castro levam todos os dias nas sapatilhas chegará para transformar-lhes o pátio de casa numa praia privativa?