Quando o bebé gatinhador chegar à borda do mar, será a mãe capaz de levantar-se do torpor bronzeado com a mesma graça com que se deitou ao sol, quando chegou?
Viam-se muito de quando em vez. Sabiam-se amigas e isso bastava para que se alegrassem a cada encontro. Ambas carregavam um tempo de vida que justificava o disfarce dos cabelos brancos com tons de cobre e o uso de saltos menos altos.
Abraçaram-se estreitamente e Laura percebeu que Joana tinha um brilho que lhe não via há anos. Disse-lho e recebeu um sorriso rasgado. Joana, a mulher alegre, de convicções fortes, tinha encontrado, sem aviso prévio, o amor.
Falou-lhe do espanto, do coração disparado, das mãos trémulas. Contou-lhe que achara um disparate, aquela coisa de se apaixonar a caminhar para os sessenta, mas que era tudo igual ao que sentira quando jovem. O sangue que se não aquietava, o pensamento sempre preso aos momentos de encontro, o sorriso tonto quando se perdia nas lembranças daquelas mãos apertando as suas. Confessou, ainda, que não seria um daqueles amores "para sempre", mas que era tão bom, mas tão bom, que não importava se durasse meses ou anos. Quando se separaram, Laura seguiu Joana com o olhar até que desaparecesse na porta do corredor onde se encontrava. Como eram leves, os seus passos!