A dor
instalara-se há tempos. Insidiosa, como se fora composta de inúmeras
agulhas finas a espetarem-se-lhe na carne. Curiosamente, onde mais a
sentia era no coração.
Começou a costurar-se, ponto a ponto, mas
lá, onde a dor era maior, não havia pesponto que chegasse.
A igreja afigurava-se-lhe bem mais pequena do que nas suas lembranças. Havia um cheiro doce e intenso a flores murchas embora as do altar da Nossa Senhora de Fátima se mostrassem exuberantes de frescura, talvez porque fosse Maio.
Pesava-lhe a memória da sua infância, menina de vestido rodado e laçarotes no cabelo loiro em caracóis, encostada à mãe nas longas missas precedidas de terço. Naquele tempo, as senhoras mais abastadas tinham uma cadeira mais confortável, comprada por elas, e era a menina que se sentava nela, só dando lugar à mãe aquando do acto de ajoelhar.
Espantou-se ao verificar que ainda havia divisão entre homens e mulheres. Tal como no passado, os homens ocupavam os lugares próximos do altar-mor, num nível superior, separado por um degrau, enquanto as mulheres, as crianças e alguns, poucos, homens mais jovens ficavam no nível inferior.
Maria Antónia sentara-se no primeiro banco do nível inferior, como lhe competia, imersa na dor da perda recente. O silêncio da espera pelo padre deixava ouvir a queda de uma ou outra rosa acastanhada pelo apodrecimento e do voo de uma mosca varejeira que entrara pelas portas abertas de par em par.
Estremecia a cada cara reconhecida. A Zefa do Marinho, com quem brincara às casinhas no recanto da despensa; o Sr. Adelino, que lhe pegara tantas vezes ao colo para melhor chegar às cerejas rubras do quintal; a Zita, a quem tinha ouvido falar pela primeira vez de beijos na boca, ...
Não se conteve e chorou. Desabaram todas as lágrimas que tinha sufocado há dias e sentiu que, de certa forma, regressara a casa.
Lembras-te, mãe, daquela vez em que estranhaste o silêncio da traquinas de três anos e a foste encontrar sentada no chão da cozinha, portas do armário escancaradas, a tirar os ovos que as galinhas tinham posto nos últimos quinze dias e a parti-los, um a um, numa alegria pintada de gema de ovo?
E de como não pudeste ralhar-lhe, quando te olhou com ar contrito e disse, fazendo beicinho: a menina é má!
Lembras-te, mãe, quando costuravas calções e bibes cheios de bolsos para caberem neles pedrinhas, caricas, flores, carrochos e todo um mundo de pequenas coisas com que enchia as fantasias de menina de sete anos?
Lembras-te, mãe, das noites de tosse funda nas quais me adoçavas o peito com xarope de cenoura e a alma com as tuas mãos ternas?
Lembras-te, mãe, quando, aos dezassete, quis ir ao baile de finalistas e o pai não deixou? Fizeste uma coisa subversiva, mãe! Assinaste tu a autorização e, não contente com isso, compraste-me uma roupa nova para eu ir dançar.
Lembras-te, mãe, quando te contei do primeiro namorado e tu só me disseste para ser feliz?
Havia tempos que Maria Inês começara a afastar-se. Não encontrava explicação para essa ânsia de se libertar da presença do outro. Era como se apenas se aquietasse no exílio.
Ia-se perdendo num caminho longo, surda a palavras que não as que guardava no pensamento.
José olhava-a em desassossego, sem que soubesse como alcançá-la, até que iniciou um caminho longo para se encontrar com ela na sua solidão.
A meio da vigília, uma nuvem negra passou diante da lua e tudo ficou negro de um modo sinistro, Maria Antónia pensou ser aquele um sinal de colapso. Era como se fossem dez homens ou um exército a comprimir-lhe o peito, com tanta falta de fôlego, convenceu-se que o coração lhe ia falhar, o anjo da morte a pairar sobre ela.
E o anjo falou e disse: nunca vi ninguém arquejar tão fundo. Queres ser tu a cavar ou preferes que eu o faça? - é preciso responder? - perguntou a Maria Antónia. - é - disse o anjo. Maria Antónia sorriu e respondeu: - um anjo belo como tu não deve sujar as mãos. Foi assim que Maria Antónia se encontrou na presença do mais belo anjo que jamais vira. Ambos sorriram ao mesmo tempo e disseram: - Ainda bem que nos encontramos! Quando acordou sentiu a falta daquele Anjo. Kodak Khrome23 de abril de 2019 às 23:09
E de como de um comentário se faz um post!
Obrigada, KK!
Ólafur Arnalds - So Far + So Close (ft. Arnór dan)