quarta-feira, dezembro 27, 2017

Sweet Amélia

(“Tales of The Unexpected” for UK Vogue December 2008 photographed by Tim Walker)



Caem pétalas de malmequeres
Despindo a flor até ao cálice
nos sonhos brancos de Amélia
Bem-me-quer, mal me quer, …

Sopra Éolo, de Barlavento
Levando-as, penas de gaivota
Corrupio alvo no azul do mar
Bem-me-quer, mal me quer…

Lengalenga com nome de flor
Bate ritmado o coração de Amélia
Despe-se de pétalas, cálice do amor
Oferenda ardente de bem querer


sexta-feira, dezembro 22, 2017

Natal



E, de repente, a árvore fez-se de Natal. O portão verde abriu-se aos que vinham de outras terras e de outros Natais. Com eles, dedos pequeninos a segurarem o espanto de pouca vida em forma de brinquedo. A árvore, orgulhosamente ornamentada de frutos adocicados, verga-se do peso destes. Ou será que sabe da pequenez dos meninos e quer deixar-se tocar, mimada?

FELIZ NATAL!


domingo, dezembro 17, 2017

Intimidade



Dedos
Breves como asas
Afloram
A sede carmesim

Corpos
Urgentes como voos
Rasgam
A fome púrpura


segunda-feira, dezembro 04, 2017

Palavras, raras...

Detalhe do "Retrato de Maria Trip" - Rembrandt  (Daqui)


Procurava as palavras como se fossem pérolas. Tomava fôlego, mergulhava em profundidade nas águas cálidas, e deixava-se ir, numa busca urgente, até que a asfixia a tomasse, empurrando-a para a superfície. Sabia das notícias que davam conta da escassez de palavras-pérola. Vieram outros pescadores!, diziam.  Ainda assim, continuaria a mergulhar. Ainda assim, encontrá-las-ia...


sexta-feira, novembro 17, 2017

As lágrimas da cebola

são as mulheres que


são as mulheres que

fazem chorar as cebolas

como se descascassem a própria vida

e, arredondando-se então, descobrissem

um corpo, o seu

uma vida, a sua

e, no entanto, nada que de verdade

pudessem seu chamar

ou talvez sim, mas só

aquela gota de água salpicando

um canto do avental onde

desponta uma flor de pano colorida que

ainda ontem ali não ardia


Bénédicte Houart, julho de 2010 © Bénédicte Houart



("Descascando Cebolas" - Lilly Martin Spencer)  daqui


Maceradas, as mãos que seguram a faca cortam, primeiro, para puxarem uma casca, depois outra, e outra e mais outra. Despem, aos poucos, a polpa branca e ácida das defesas cor de fogo. Ardem-lhe os olhos, à mulher das mãos maceradas. Supõe-se que seja da acrimónia do fruto quando nu. Ninguém percebe que é ela, avental visível numa flor gritante, ela é que está nua. Ninguém, senão ela, sente o frio do aço.


segunda-feira, novembro 06, 2017

Como água para a tua boca


You are perfect for me

because you’re psychic
no one else could understand me
the way you

do and

I say
Drink Me

I say it to you silently
but it calls forth in me

the water for you
the water you asked for


(Rebecca Wolff)





Tu és perfeito para mim 

porque tu és adivinho 
ninguém mais me poderia entender 
da mesma forma que tu

me entendes e

eu digo 
Bebe-me

eu digo-to em silêncio 
mas dizê-lo invoca em mim

a água para ti 
a água tu pediste

(Rebecca Wolff - traduzida por Maria Eu)