segunda-feira, agosto 07, 2017

Viagem de comboio

(Fanny Nushka, in Saatchiart)

O anúncio sonoro da chegada do comboio despertou-a do torpor ensonado da espera de mais de vinte minutos. Um frenesim apoderou-se dos passageiros em espera. O ruído das malas a rodar fazia lembrar metralhadoras. Carruagem 5, lugar 83, janela. Acomoda-se rapidamente, puxa a mesa do suporte, retira o livro da bolsa e, antes que o consiga abrir, um rapaz nos seus dezoito, barba crescida, cabelo rebelde, óculos de massa e vestuário "certinho", atira-se, literalmente, para o seu lado, enquanto acomoda um saco de dimensões consideráveis por baixo do banco da frente. Os esforços para encaixar o volumoso objecto são acompanhados de uma espécie de resfolegar e gestos largos. Tão largos que a obrigam a encolher-se de encontro à janela qual mosca indesejada. Apaziguado, o rapaz saca de um embrulho gorduroso e faz aparecer um hambúrguer que seria devorado enquanto o diabo esfregava um olho. Inclina-se para o saco que ainda há pouco se esforçara para acomodar espetando-lhe o cotovelo esquerdo repetidamente na cintura. Não conseguira colar-se à janela devidamente, pelos vistos. De nada valeram os olhares mortíferos ou os suspiros profundos e desaprovadores. O jovem mergulhara no telemóvel e os phones tornavam-no surdo. Mais de duas horas depois e, seguramente, umas nódoas negras por baixo da blusa branca de tanta agitação cotovelar, o pequeno selvagem levantou-se de um salto ao anúncio da próxima estação e puxou o saco com tanta violência que o fez estatelar-se no corredor. Mesmo dorida das cotoveladas, Clara desatou às gargalhadas. Afinal, não seria a única a levar umas mazelas da viagem.

quarta-feira, agosto 02, 2017

#parecesasvelhotas

(fotografia de  Ari Seth Cohen, do Advanced Style)

Sais com as filhas das tuas amigas (que tu só tens um rapaz e dele só ouves que #parecesasvelhotas) e, de repente, elas estão a experimentar as socas que tu usavas aos quinze, com aquela plataforma de dez centímetros, de vestidos compridos "flower power" e bolsas à tiracolo com franjas. Na verdade, se fores ao baú onde guardas os álbuns podes mostrar-lhes aquela foto na praia, num grupo de raparigas muito sorridente, tal e qual elas. Folheando o mesmo álbum, há aquela, em biquini reduzido, com laços de lado (oh, pá, que não tinha barriga nem nada), pirosa que só visto, em cima de uma rocha, ao pôr do sol, em pose cinéfila para o fotógrafo, um rapazinho moreno que te lera poemas nesse Verão. 
É então que perguntas à menina da loja se tem o teu número das socas, em castanho, e as raparigas se riem e acham que és uma cota muito à frente. Tu, que lhes fazes companhia, de jeans bordadas, túnica em crochet e sapatilhas! Cota! Pois... #parecesasvelhotas, não adianta!

E não, não lhes disse que li Eça aos treze anos porque isso ia ser fatal! Embora, intercalados, tivessem estado Hergé e Hugo Pratt.

*Versão muito light de uma corrente de posts iniciada pela Susana ,continuada pelo Pipoco, pelo Xilre e pela Linda Blue.

quinta-feira, julho 27, 2017

Morrer


(Robert Gonsalves)

Sentia-se morrer. Estranhamente, morrer não era aquilo que mais a assustava. O que a fazia sofrer era a ideia de nunca mais ver o mundo pelos olhos dele.


terça-feira, julho 18, 2017

Os amantes

(Fresco de Pompeia)

Os amantes sabem-se de cor
têm-se mapeados na polpa dos dedos
desenhados na pele que percorre o caminho
da nuca, vértebra a vértebra, até ao sacro


Os amantes, como os pássaros,
Cruzam os céus em voos estonteantes
Rasam os perigos sem medo, cantando
Sem que gaiola alguma os aprisione


quinta-feira, julho 13, 2017

Parecenças II


Chegado a casa, o Engenheiro Castro, António Alberto de seu nome, subiu apressadamente a escada que dava para o quarto, libertando-se da roupa em gestos largos, enquanto se dirigia ao duche, deixando-a peça a peça, quais peles de animais esfolados, caída pelo chão. Mariana, sempre com o seu aventalinho imaculadamente branco destacando-se no preto do uniforme, logo se encarregaria de a recolher, uma a uma, curvando-se elegantemente, como ele tanto gostava de apreciar, deixando que as curvas deliciosamente arredondadas das ancas e do rabo rematassem as pernas em tensão muscular.
Ah! Mariana! Como lhe conhecia as pregas mais recônditas, os sinais escuros na mama direita, a marca arroxeada, de nascença, em forma de borboleta, na base da nuca, que ficava a descoberto quando desviava o cabelo! Tinham crescido juntos e, desde a morte do pai e da mãe naquele terrível acidente de automóvel, era nela que encontrava aconchego e carinho. Escapava-se do quartinho esconso nos anexos da casa dos Cunha e Villar e corria para os seus (a)braços (ou melhor, a dar-lhe os seus) noite após noite, numa entrega total, sem nunca pedir nada a não ser umas horas de carícias e palavras ternas.
Foi a ela que perguntou, ainda impressionado com a parecença com o falecido: Meu amor, achas-me assim tão igual ao burgesso do Joãozinho?
Foi também ela que, com voz doce e apaixonada, entre beijos ardentes, o sossegou: Nem pensar, meu adorado! Tu és muito mais bonito!

Nós, que sabemos como são as mulheres apaixonadas e os homens demasiado crédulos, sorrimos, enquanto cogitamos se o pai do engenheiro e a mãe do Joãzinho não teriam, como rezam as más línguas da aldeia, caído na tentação da carne.


quinta-feira, julho 06, 2017

Nos quatro anos do Xilre

(Mark Rothko)

Quem não gostaria de ter um pássaro cantor no beiral e  de receber cartas manuscritas a tinta azul cobalto, com a caneta S. T. Dupont Olympio de J. Eustáquio de Andrada? 
O Xilre é, a um tempo, um romântico que derrete o coração de qualquer Orchidée e, a outro, um analista minucioso da realidade. Entramos na sua casa sempre à espera de ficarmos maravilhados e saímos, muitas vezes, mais do que enriquecidos, curiosos, prontos para saber mais, seja de música, de literatura, ou de minudências que a outros nunca ocorreriam observar ou descrever. É que é um blog tão em bom, tão em bom, que até gerou um movimento blogosférico com piratas, flores, palmiers, pipoco(a)s, e todo um exército de bloggers para o sitiarmos onde não o pudéssemos perder.
Longa vida, caro Xilre! Hip! Hip! Hurra!