terça-feira, fevereiro 14, 2017

O acidente de Cupido

(daqui)

Marta e João conheciam-se há bastante tempo. Nunca tinham, contudo, olhado um para o outro com outros olhos que não os de cordial vizinhança. Aproximava-se o dia de São Valentim, aquele tão falado em tudo o que era rede social, canal de televisão, anúncios de perfumes, chocolates, peluches e afins. Marta sentia-se inquieta e João não se sentia menos. Se ela acordara mais alegre e vestira uma saia florida, combinada com uma blusa branca e um casaco vermelho, ele trauteava Velvet Underground desde cedo e perfumara-se com Only, da Givenchy. Saíram de casa com um sorriso nos lábios e uma estranha vontade de dançar. A chuva dera uma trégua e a temperatura parecera ter adoçado para os ver passar. Ela vinha do número 100, 3.º Esq., ele vinha do número 100, 1.º Dto.. Tudo se conjugava para que se cruzassem ao subirem a rua em direcção ao auditório musical. Sim, porque os dois tinham comprado bilhete para o concerto de piano com obras de Beethoven que começaria dentro em pouco. Ele seguia em passo largo, ela em passinhos miúdos, evitando as fendas da calçada, não fossem os tacões dos elegantes sapatos estragarem-se. Quase se ouvia a excitação no ar. Ambos de faces rosadas pela caminhada, ambos felizes e expectantes. De repente, um ruído ensurdecedor. Estavam a centímetros um do outro. Marta sentia a fragrância de Only. João podia ver uma nesga do rubro do casaco dela. Olharam para cima. De encontro à parede do prédio, Cupido gemia, ferido, perdido o arco, caídas as flechas. Suspiraram em simultâneo e seguiram caminho, entrando ele pela porta principal e ela pela do lado direito. Não se sabe se Cupido recuperou a tempo de juntar os dois.


segunda-feira, fevereiro 13, 2017

Sedução

(Jack Vettriano)


-Diz-me algo bonito! pediu-lhe, sorrindo.
-Tu! disse-lhe, olhando-a, perigosamente perto de um beijo.



quarta-feira, fevereiro 08, 2017

Diz-me

Diz-me

Diz-me, amor
onde
fica
o lírio roxo
do 
teu
sexo túrgido
na sede
do 
meu.

Diz-me, amor
onde
encontro
a alma branca
do
pássaro 
azul,
tu.




(Loui Jover)



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segunda-feira, fevereiro 06, 2017

Primeira viagem

(Pablo Picasso)

O vento sibila agudamente ecoando nas persianas, corridas na previsão de tempestade. Bátegas intensas de chuva castigam as paredes e as grades da varanda, compondo uma música ensurdecedora. Marta encolhe-se no sofá, manta de xadrez vermelho e bege agasalhando-lhe as pernas, sem conseguir ler o livro que comprara no dia anterior, Confissões de uma máscara, de Yukio Mishima. 
Não passara da primeira frase: "Durante muito tempo, sustentei que era capaz de me lembrar de coisas que tinha visto na altura do meu nascimento."
Fosse da fúria do temporal ou da incapacidade de avançar para além destas parcas palavras, Marta sentiu-se como que viajando no tempo, até ao momento exacto em que o médico a puxava de dentro da mãe. Os olhos cegos pela luz e pelos fluídos, o corpo dorido da curta mas dura odisseia, o golpe no cordão umbilical, o grito a custo arrancado da garganta minúscula, boca escancarada, sinal da vida, sua, princípio. A estranheza do ar nos pulmões, da roupa que lhe tolhia os braços e as pernas. Os cheiros. Meu Deus, os cheiros intensíssimos a invadi-la, a confundi-la. Mãos. Muitas mãos no seu corpo cansado e tenro. O sossego breve no peito da mãe, a voragem da fome na aproximação inexperiente aos mamilos castanhos e túrgidos.  
O vento acalmara. A chuva era agora mais mansa. Marta dorme, como dormira nesse dia primeiro, rendida ao cansaço.


sexta-feira, fevereiro 03, 2017

Beijos

(Kees van Dongen)


A mulher de blusa branca sentou-se na mesa ao lado da dele. Parecia alheada do ruído das conversas, das loiças e dos pedidos feitos pelos empregados do café ao Sr. Arlindo, homem de farfalhudo bigode por detrás do balcão. Um vibrar do telemóvel fê-la atender. Por entre as outras vozes, conseguiu ouvir a dela, doce:
"-Doem-me os lábios dos beijos que te não dou!"



segunda-feira, janeiro 30, 2017

Já morri e renasci


(Mark Rothko)

Já vivi depois de muitas mortes

morta na espera do grito inicial
demorava, mas veio, depois do vómito
cinquenta e um centímetros de altura
rosto marcado pela luta primeira 

morta de telefone na mão
foi agora, há destroços na estrada
viva ao segundo telefonema
a voz dela, da que te embalou

morta nas letras a negro na carta
ainda havia graus - Grau IV
viva, de bata azul, o medo frio
as palavras não - livre - descansar

morta no corpo ferido dele
mãe, não vejo, mãe, mãe
viva, a custo, nas salas brancas
no seu olhar menos preciso, mas seu