O vento sibila agudamente ecoando nas persianas, corridas na previsão de tempestade. Bátegas intensas de chuva castigam as paredes e as grades da varanda, compondo uma música ensurdecedora. Marta encolhe-se no sofá, manta de xadrez vermelho e bege agasalhando-lhe as pernas, sem conseguir ler o livro que comprara no dia anterior, Confissões de uma máscara, de Yukio Mishima.
Não passara da primeira frase: "Durante muito tempo, sustentei que era capaz de me lembrar de coisas que tinha visto na altura do meu nascimento."
Fosse da fúria do temporal ou da incapacidade de avançar para além destas parcas palavras, Marta sentiu-se como que viajando no tempo, até ao momento exacto em que o médico a puxava de dentro da mãe. Os olhos cegos pela luz e pelos fluídos, o corpo dorido da curta mas dura odisseia, o golpe no cordão umbilical, o grito a custo arrancado da garganta minúscula, boca escancarada, sinal da vida, sua, princípio. A estranheza do ar nos pulmões, da roupa que lhe tolhia os braços e as pernas. Os cheiros. Meu Deus, os cheiros intensíssimos a invadi-la, a confundi-la. Mãos. Muitas mãos no seu corpo cansado e tenro. O sossego breve no peito da mãe, a voragem da fome na aproximação inexperiente aos mamilos castanhos e túrgidos.
O vento acalmara. A chuva era agora mais mansa. Marta dorme, como dormira nesse dia primeiro, rendida ao cansaço.
A mulher de blusa branca sentou-se na mesa ao lado da dele. Parecia alheada do ruído das conversas, das loiças e dos pedidos feitos pelos empregados do café ao Sr. Arlindo, homem de farfalhudo bigode por detrás do balcão. Um vibrar do telemóvel fê-la atender. Por entre as outras vozes, conseguiu ouvir a dela, doce:
Mariana, a mulher de olhar doce e fundas olheiras, chegara à empresa há pouco mais de um ano. Era Verão e estranharam-lhe as mangas compridas e as blusas de botões apertados até ao colarinho, embrulhadas naquela quietude tímida que trazia pela manhã e a deixava quase sempre calada até à hora de saída. De nada lhe valia a educação impecável ou o trabalho dedicado. As colegas de escritório não lhe perdoavam o distanciamento nas conversas durante as pausas para café ou as ausências nos almoços de convívio mensais.
"- Já viste a deslavada da contabilidade? Pffffffff! Sempre de olhos baixos, sempre coberta da cabeça aos pés!"
"- Coitada, deve ter uma doença de pele, para se cobrir daquela maneira!"
Foi então que, numa manhã de segunda-feira, Mariana tropeçou no tapete da porta de entrada, batendo com a cabeça e desmaiando. Chamaram o 112 e João Carlos, o telefonista que em tempos fizera dois anos na escola de enfermagem, começou a desapertar-lhe a blusa na tentativa de a ajudar a respirar melhor. Aos olhos de todos, apareceu a justificação para tanto cuidado. O peito estava coberto de cicatrizes, assim como o braço desnudado pelo técnico do INEM para medir a tensão.
Houve um murmúrio inquieto. Soube-se mais tarde que Mariana nem era sequer o nome verdadeiro da rapariga da contabilidade. Há muito que fugia de um companheiro violento que quase a matara de pancada porque ela se atrevia a ir tomar café sem ele.