Ouviu, por acaso, as palavras da mulher da mesa ao lado, num tom de voz um pouco mais alto do que seria de esperar para uma confidência em pleno salão de chá: "-Existo para além de mim." Suspendeu a torrada que segurava na mão direita e parou de mexer o chá de rooibos, surpreendida. Talvez se ouvisse mais um pouco, pensou, entendesse o que significavam.
Desviou discretamente o olhar para observar os ocupantes da mesa. Uma mulher e um homem nos cinquenta olhavam-se com ternura cúmplice, as mãos aflorando-se ao de leve. Entendeu.
(LASZLÓ LAKNER) Entre nós e as palavras há metal fundente entre nós e as palavras há hélices que andam e podem dar-nos morte violar-nos tirar do mais fundo de nós o mais útil segredo entre nós e as palavras há perfis ardentes espaços cheios de gente de costas altas flores venenosas portas por abrir e escadas e ponteiros e crianças sentadas à espera do seu tempo e do seu precipício Ao longo da muralha que habitamos há palavras de vida há palavras de morte há palavras imensas, que esperam por nós e outras, frágeis, que deixaram de esperar há palavras acesas como barcos e há palavras homens, palavras que guardam o seu segredo e a sua posição Entre nós e as palavras, surdamente, as mãos e as paredes de Elsinore E há palavras nocturnas palavras gemidos palavras que nos sobem ilegíveis à boca palavras diamantes palavras nunca escritas palavras impossíveis de escrever por não termos connosco cordas de violinos nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar e os braços dos amantes escrevem muito alto muito além do azul onde oxidados morrem palavras maternais só sombra só soluço só espasmos só amor só solidão desfeita Entre nós e as palavras, os emparedados e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.
in «Uma Grande Razão», de Mário Cesariny
Quando calas as palavras que te sobem, impulsivas, à boca Quando as sufocas, julgando-as, manietando-as ali mesmo, aprisionadas onde foram pensadas Quando acabas por matá-las, porque incómodas enterrando-as bem fundo, uma e outra vez És tu que imerges na escuridão de Elsinore no cortejo desolado e infausto de Hamlet.
Subiu as escadas duas a duas. Havia de subi-las três a três, como quando era menina, mas à primeira experiência descobrira que de menina só lhe sobrava a memória.
O terraço continuava soalheiro e as floreiras mantinham luxuriantes sardinheiras, enquadradas por grades pintadas de um verde que em tempos fora escuro. A fechadura da porta da cozinha cedeu ao rodar da chave com um estalido grave, acompanhado pela agudez do chiar das dobradiças. Esbofeteou-a o odor acre. Porque doíam, os cheiros que agora se instalavam onde outrora havia o aroma dos biscoitos de laranja e canela, dos assados de Domingo, da roupa acabada de passar a ferro. A cozinha, sempre cheia de taças com fruta, cambos de cebolas e alhos pendurados em ganchos nas paredes, ao lado dos chouriços curados em longos fumeiros de Inverno, esvaziara-se. Os ganchos vazios projectavam uma sombra ameaçadora nos azulejos brilhantes à luz branca da florescente. O longo corredor que leva aos quartos e à sala grande (Ah! A sala grande dos Natais em família! Quantos risos de meninos e sons de conversas felizes guarda!) tem que ser percorrido apalpando as paredes. Fundiram-se as lâmpadas dos apliques. Entra no seu quarto. Continua tudo igual. Nas molduras que habitam a cómoda, os jovens mantêm-se jovens, os meninos ainda são meninos e os que morreram continuam vivos. Abre, a custo, as contras das janelas, empenadas pela falta de uso. Libertas, as janelas filtram o sol da tarde que ainda vai curta. Roda-lhes o fecho e deixa entrar a vida toda: pássaros chilreantes, grilos e ralos cantores, a mãe a chamá-la para o lanche de leite com cevada e pão com geleia, e ali, bem ao alcance das suas mãos, a nespereira. Sim, a mesma que sabem dar frutos amarelos e suculentos, em cujo tronco se recosta uma velha e cansada escada de madeira.
Chegou antes da hora. Pela porta entreaberta via-o. Segurava-se, em equilíbrio periclitante, à mesa baixa da sala de estar onde repousavam as molduras com fotografias de filhos, netos e bisnetos, lado a lado com a jarra de camélias brancas. Reparou que se baixava para calçar os sapatos enquanto resmungava de si para si, quem sabe maldizendo o reumatismo que agora lhe tolhe pernas e mãos, dificultando-lhe os mais comezinhos gestos rotineiros. Ainda se sentiu tentada a entrar e oferecer ajuda, mas veio-lhe à memória o homem forte e sobranceiro de outrora, aquele que franzia o sobrolho à mínima tentativa de lhe afastarem empenos do caminho, e retirou-se, pé ante pé.
"Dois jovens peixes vão nadando, e a certa altura encontram um peixe já velho que vai em sentido oposto, lhes faz um gesto de saudação e diz: "Vivam, rapazes! Que tal está a água?". Os dois peixes jovens nadam mais um pouco e depois um vira-se para o outro e diz: "Que raio de coisa é a água?"."
Do manifesto A Utilidade do Inútil, de Nuccio Ordine.
Moves-te a cada dia num alheamento da realidade em que imerges. Talvez isso signifique que a aceitas tal como te é servida, sem te aperceberes que não contas para a elaboração do cardápio.