domingo, setembro 04, 2016

Declaração de amor

(Carolyn Weltman)

Meu Homem. Meu embondeiro. Meu cravo vermelho.  Meu perfume. Minha escada. Minha estrela. Minha chuva de Verão. Minha fogueira de Inverno. Meu ombro. Meu colo. Meu abraço imenso. Minhas mãos ternas. Meu presente. Meu amigo. Meu amante. Meu amor.


sábado, setembro 03, 2016

Não foi Setembro. Quem sabe, Outubro...

(Lester Rapaport)


Doeu-lhe Agosto como há muito lhe não doía mês algum. Abateu-se sobre ela uma solidão acompanhada, feita de conversas sobre receitas de salmão e bolo de chocolate, risos agudos, músicas de altifalantes e buzinas em cortejos festivos de casamentos. Sacudia a cabeça como que a tentar acordar daquela dor fina que lhe tolhia as pernas e lhe dava um leve esgar de sarcasmo permanente nos lábios. Desejou Setembro. Porém, entrado o novo mês, apenas as pernas começaram a sentir um pequeno alívio, fruto do milagroso gel de aloé vera que Joana espalhava, a cada fim de tarde, com mãos leves e quentes. Quem sabe, em Outubro...


terça-feira, agosto 23, 2016

Estranhamente



Vinha-lhe a urgência da fuga. Havia a rotina, enfadonha, das horas cheias de minudências, de ruído, de pessoas com rosto mas sem nome. Ansiava por Agosto, pelas manhãs mais longas de sono, pelo sol a morder-lhe a pele branca, pelos pés na erva, os pêssegos vermelhos e lisos colhidos directamente do pessegueiro, as uvas pintadas de negro na espera de Setembro.
Estranhamente, nesses dias lânguidos em que apenas os trinados dos pássaros e um ou outro cão ladrando perturbavam a leitura adiada de obras escolhidas com o cuidado de onze meses, nesses dias, sentia uma inesperada inquietude, uma falta da voragem em que julgara afundar-se sem salvação.


sexta-feira, agosto 19, 2016

Uma esplanada em Agosto


Sentou-se na esplanada onde sempre regressava a cada Verão. O sol punha um brilho particular no rio que se espraiava logo ali, com mansidão, abrigando famílias inteiras de patos bravos e um ou outro esquife em remadas rápidas. A incursão rápida e inesperada de um menino, em correria desenfreada na perseguição de um Fox Terrier, fez perigar a paz dos veraneantes, tendo alguns saltado das cadeiras para formarem uma barreira entre o pequeno e o empedrado que ladeia a água. A tranquilidade foi restaurada, se bem que não tardou um ruído irritante de buzinas. Inquietaram-se de novo os que repousavam frente às chávenas de café e às bebidas frescas. Um cortejo automóvel seguia, devagar, um Mercedes Benz antigo (o modelo não sei dizer, já que não sou dada a esses detalhes), descapotável, de onde esvoaçavam fitas e véus. Pararam mesmo ali, que o chafariz é ponto de honra nas fotos de casamento, e a noiva, (des)ajudada por três raparigas vestidas de azul forte, em equilíbrio periclitante nuns sapatos de salto agulha, eclodiu do casulo de tule, qual borboleta, desembaraçando-se do véu. O noivo... Bem, o noivo não teve ajuda e, ao tentar sair com elegância, tropeçou aparatosamente no longo véu pousado no banco. 
"Começas já a cair?", diz a noiva em voz estridente.
"A culpa foi tua!", grita o noivo, ainda a levantar-se e a sacudir o fato cinzento.
Abriu a carteira, pegou numa moeda de um euro e poisou-a na mesa para pagar o café.
Era Agosto! Afinal, tocava ao longe uma concertina e estava de férias. Sorriu.



terça-feira, agosto 09, 2016

Gaivotas em terra


(Ana Barros)


Primeiro a estranheza. Aquele som estridente a ecoar no quarto, a luz ainda tímida, a entrar pelas frinchas da persiana. Depois, olhos abertos, sentidos já a despertar do torpor do sono, o mesmo som. Gaivotas! A mais de 30 quilómetros do mar, na cidade praticamente deserta dos seus e invadida por estranhos, as gaivotas faziam uma festa e lembravam-lhe que era tempo de ir ver o mar.



quinta-feira, agosto 04, 2016

Tacto

(Dora Maar,  Picasso's lover, by Man Ray)


Tinha um tacto de tal forma apurado que só precisava do coração para sentir cada linha do corpo dele.