(Paula Rego) - De quando em vez, dói-me a alma, doutor. - E o corpo, Ana? O corpo é que eu tenho que tratar! - O corpo? O corpo está doente porque me dói a alma.
Hoje, os amantes vivem a cupidez da luz. Há colibris estupidamente coloridos a beber os sucos doces e quentes dos corpos, receptáculos do mel translúcido que escorre do amor. Desabaram as paredes e a cama é um prado onde pontilham papoilas rubras, tão rubras como os lábios de ambos, macerados de tanto se beijarem.
Clara misturava-se no bulício do mercado, enleada na doçura das palavras, no castelhano arrastado, no colorido das frutas, das flores, no eco das milongas tocadas em gira-discos de plástico. Havia naquele povo todo um orgulho no olhar que negava as ruas esburacadas, a praia não vigiada onde os meninos saltavam do cais para o mar em revoadas de risos, libertos das roupas cerzidas pelas mãos hábeis de avós. Sorriam-lhe, os tendeiros, bebendo mate e ofertando de tudo um pouco.
Foi ao virar aquela esquina que umas palavras escritas na parede a fizeram parar: "La razon se pierde razonando". Assim, de pernas para o ar, como que para obrigar a uma atenção redobrada.
How do we come to be here next to each other in the night Where are the stars that show us to our love inevitable Outside the leaves flame usual in darkness and the rain falls cool and blessed on the holy flesh the black men waiting on the corner for a womanly mirage I am amazed by peace It is this possibility of you asleep and breathing in the quiet air
June Jordan
Poema para o meu amor
Como é possível estarmos aqui lado a lado na noite Onde as estrelas nos desvendam o nosso amor inevitável Lá fora o costumeiro brilho das folhas na escuridão e a chuva cai fria e abençoada na carne sagrada os homens negros à espera na esquina por uma miragem feminina Maravilho-me com a paz É esta promessa de ti adormecido e respirando no ar sereno
"observo todo o meu corpo sem julgamentos, tacteando as memórias de que é feito. logo abaixo da virilha direita, um corte pouco profundo, que não sei de onde surgiu. a cicatriz, rubra, é recente. descendo pelas coxas, encontro mais alguns arranhões, já quase imperceptíveis, que não me merecem muita atenção. deslizo os dedos pelo joelho, sinto o despontar de alguns pêlos, não me importo, e continuo até à barriga da perna. a pequena circunferência arroxeada, que também não me lembro onde me veio, dói-me, ao toque mais profundo. pressiono com força, como uma louca teimosa.
imagino então se alguém me visse assim, marcada, à luz clara da nudez, e envergonho-me de mim."
Há muito que evito observar o meu corpo por ser incapaz de o fazer sem julgamentos. A pele do peito, logo ali, entre as mamas, que se enruga ligeiramente do peso que carrega, pintalgada de sinais, a barriga que deixou de ser lisa, a cicatriz que a cruza, encimando a zona púbica, originado uma prega, a progressiva flacidez das coxas, os tornozelos inchados.
Vem-me uma estranha e súbita vergonha da minha nudez, ainda que seja uma nudez solitária.