sábado, junho 04, 2016
Na noite de ar sereno
(Marc Chagall)
Poem for my love
How do we come to be here next to each other
in the night
Where are the stars that show us to our love
inevitable
Outside the leaves flame usual in darkness
and the rain
falls cool and blessed on the holy flesh
the black men waiting on the corner for
a womanly mirage
I am amazed by peace
It is this possibility of you
asleep
and breathing in the quiet air
June Jordan
Poema para o meu amor
Como é possível estarmos aqui lado a lado
na noite
Onde as estrelas nos desvendam o nosso amor
inevitável
Lá fora o costumeiro brilho das folhas na escuridão
e a chuva
cai fria e abençoada na carne sagrada
os homens negros à espera na esquina por
uma miragem feminina
Maravilho-me com a paz
É esta promessa de ti
adormecido
e respirando no ar sereno
June Jordan traduzida por Maria Eu
quarta-feira, junho 01, 2016
Crueza
(Herb Ritts)
"observo todo o meu corpo sem julgamentos, tacteando as memórias de que é feito. logo abaixo da virilha direita, um corte pouco profundo, que não sei de onde surgiu. a cicatriz, rubra, é recente. descendo pelas coxas, encontro mais alguns arranhões, já quase imperceptíveis, que não me merecem muita atenção. deslizo os dedos pelo joelho, sinto o despontar de alguns pêlos, não me importo, e continuo até à barriga da perna. a pequena circunferência arroxeada, que também não me lembro onde me veio, dói-me, ao toque mais profundo. pressiono com força, como uma louca teimosa.
imagino então se alguém me visse assim, marcada, à luz clara da nudez, e envergonho-me de mim."
Texto de a faca não corta o fogo
Há muito que evito observar o meu corpo por ser incapaz de o fazer sem julgamentos. A pele do peito, logo ali, entre as mamas, que se enruga ligeiramente do peso que carrega, pintalgada de sinais, a barriga que deixou de ser lisa, a cicatriz que a cruza, encimando a zona púbica, originado uma prega, a progressiva flacidez das coxas, os tornozelos inchados.
Vem-me uma estranha e súbita vergonha da minha nudez, ainda que seja uma nudez solitária.
sexta-feira, maio 27, 2016
Amor marítimo
(imagem daqui)
Sentavam-se, a cada Junho, lado a lado, a mão direita dele repousava no joelho dela que espreitava, de uma brancura nívea, abaixo da fímbria do vestido azul, enquanto a mão esquerda dela, por sua vez, lhe enlaçava os dedos. Havia algum tempo que ficavam ali, no molhe sobranceiro ao mar agitado, tendo por música de fundo as ondas a chicotearem as rochas verdes de limo e as gaivotas em conversas de tom agudo. De quando em vez, olhavam-se, e era impossível alguém não sorrir vendo-os a olhar-se, tal o brilho que ambos irradiavam.
Muitos anos volvidos, diziam os passantes avistarem um homem e uma mulher que, a cada tarde de Junho, nadavam lado a lado no mar em frente ao molhe, entre carícias e beijos.
segunda-feira, maio 23, 2016
sexta-feira, maio 20, 2016
Depois do Sul (3)
Naquela noite e em muitas outras que se lhe seguiram, dormiu numa casa de madeira que os pescadores costumavam usar para guardar redes. Sim, ela também tinha a sua e ali a guardava, junto às outras, as que prendiam nas suas malhas peixes prateados e, por vezes, polvos, chocos, lulas, até um tubarão, segundo o Toino da Ana Mar. "Sim, menina, um tubarão martelo, com a sua nadadeira dorsal alta a destacar-se na malha larga, os olhos ferozes e o corpo em luta. Deixá-mo-lo ir. É poderoso para lá da conta, o bicho! Nem nos atrevemos a cravar-lhe o arpão! Mas o pior, menina, o pior são as moreias. Agarram-se a um braço ou a uma perna de um homem que nunca mais somos senhores deles! Traiçoeiras, as cobras gigantes do mar!"
Os dias eram passados em longas caminhadas na areia, procurando a zona molhada, vendo as suas pegadas misturar-se com as das gaivotas, enfeitadas por algas, conchas, seixos. Depois, havia a cegonha. Chamara-lhe Flidais, como a deusa celta, já que esta tinha o poder de se metamorfosear em qualquer animal e aquela ave imponente e tranquila parecia olhá-la de maneira peculiar e protectora.
O Sul não era o que ela esperava. O azul tardava em aparecer e o vento não lhe dava tréguas. Usara a adaga para tudo um pouco: transformar as botas numas sandálias, amanhar peixe para grelhar numa fogueira sobre as dunas, descascar mangas e, até, ameaçar um ou outro mais atrevido que vinha rondar-lhe a porta de madeira sem fechadura.
Foi na manhã em que Flidais levantou voo e voltou a cabeça para a olhar, como a dizer-lhe que a seguisse, que alisou o vestido vermelho no corpo, pintou os lábios, pegou na adaga e na rede e partiu. Não estava certa de qual o seu destino, só o soube quando a cegonha, sábia como só ela, poisou no topo de uma chaminé, bem ali, no Centro, junto de duas oliveiras perfeitamente simétricas, uma ao lado da outra. a bastante distância para pendurar a rede.
quinta-feira, maio 19, 2016
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