sexta-feira, maio 27, 2016

Amor marítimo


(imagem daqui)

Sentavam-se, a cada Junho, lado a lado, a mão direita dele repousava no joelho dela que espreitava, de uma brancura nívea, abaixo da fímbria do vestido azul, enquanto a mão esquerda dela, por sua vez, lhe enlaçava os dedos. Havia algum tempo que ficavam ali, no molhe sobranceiro ao mar agitado, tendo por música de fundo as ondas a chicotearem as rochas verdes de limo e as gaivotas em conversas de tom agudo. De quando em vez, olhavam-se, e era impossível alguém não sorrir vendo-os a olhar-se, tal o brilho que ambos irradiavam. 




Muitos anos volvidos, diziam os passantes avistarem um homem e uma mulher que, a cada tarde de Junho, nadavam lado a lado no mar em frente ao molhe, entre carícias e beijos.

sexta-feira, maio 20, 2016

Depois do Sul (3)


Naquela noite e em muitas outras que se lhe seguiram, dormiu numa casa de madeira que os pescadores costumavam usar para guardar redes. Sim, ela também tinha a sua e ali a guardava, junto às outras, as que prendiam nas suas malhas peixes prateados e, por vezes, polvos, chocos, lulas, até um tubarão, segundo o Toino da Ana Mar. "Sim, menina, um tubarão martelo, com a sua nadadeira dorsal alta a destacar-se na malha larga, os olhos ferozes e o corpo em luta. Deixá-mo-lo ir. É poderoso para lá da conta, o bicho! Nem nos atrevemos a cravar-lhe o arpão! Mas o pior, menina, o pior são as moreias. Agarram-se a um braço ou a uma perna de um homem que nunca mais somos senhores deles! Traiçoeiras, as cobras gigantes do mar!"
Os dias eram passados em longas caminhadas na areia, procurando a zona molhada, vendo as suas pegadas misturar-se com as das gaivotas, enfeitadas por algas, conchas, seixos. Depois, havia a cegonha. Chamara-lhe Flidais, como a deusa celta, já que esta tinha o poder de se metamorfosear em qualquer animal e aquela ave imponente e tranquila parecia olhá-la de maneira peculiar e protectora.
O Sul não era o que ela esperava. O azul tardava em aparecer e o vento não lhe dava tréguas. Usara a adaga para tudo um pouco: transformar as botas numas sandálias, amanhar peixe para grelhar numa fogueira sobre as dunas, descascar mangas e, até, ameaçar um ou outro mais atrevido que vinha rondar-lhe a porta de madeira sem fechadura.
Foi na manhã em que Flidais levantou voo e voltou a cabeça para a olhar, como a dizer-lhe que a seguisse, que alisou o vestido vermelho no corpo, pintou os lábios, pegou na adaga e na rede e partiu. Não estava certa de qual o seu destino, só o soube quando a cegonha, sábia como só ela, poisou no topo de uma chaminé, bem ali, no Centro, junto de duas oliveiras perfeitamente simétricas, uma ao lado da outra. a bastante distância para pendurar a rede.


segunda-feira, maio 16, 2016

Nudez


(Modigliani)



Fico nua, sempre, contigo, porque me dispo de tudo menos de mim.



quinta-feira, maio 12, 2016

Rumo ao Sul (2)

(Salvador Dali)


Chegara ao Sul. Ao contrário do que esperava o céu não azulara e o vento, sempre louco, punha em reboliço o vestido vermelho, sem que pudesse, sequer, imitar a pose sexy de Marilyn Monroe, com os vasos de tulipas amarelas numa mão, enquanto a outra apertava ao peito o xaile preto, dedos cerrados em volta do punho lavrado da adaga de prata, lábios coloridos pelo batôn.
Perseguira-a a imensa fadiga que a levara a partir com tudo menos coisas de préstimo. Pensando bem, o vestido, o xaile, as botas de montar, os vasos de tulipas, o batôn e a adaga eram, de facto, uma lista. Uma lista tão imprestável quanto ela. Ainda assim, voltou atrás, abriu a mala do carro, e arrastou, a custo, a rede que um dia destinara pendurar em dois coqueiros.