segunda-feira, maio 16, 2016

Nudez


(Modigliani)



Fico nua, sempre, contigo, porque me dispo de tudo menos de mim.



quinta-feira, maio 12, 2016

Rumo ao Sul (2)

(Salvador Dali)


Chegara ao Sul. Ao contrário do que esperava o céu não azulara e o vento, sempre louco, punha em reboliço o vestido vermelho, sem que pudesse, sequer, imitar a pose sexy de Marilyn Monroe, com os vasos de tulipas amarelas numa mão, enquanto a outra apertava ao peito o xaile preto, dedos cerrados em volta do punho lavrado da adaga de prata, lábios coloridos pelo batôn.
Perseguira-a a imensa fadiga que a levara a partir com tudo menos coisas de préstimo. Pensando bem, o vestido, o xaile, as botas de montar, os vasos de tulipas, o batôn e a adaga eram, de facto, uma lista. Uma lista tão imprestável quanto ela. Ainda assim, voltou atrás, abriu a mala do carro, e arrastou, a custo, a rede que um dia destinara pendurar em dois coqueiros.



terça-feira, maio 10, 2016

Rumo ao Sul

(Joan Miro - Escape Ladder)


Entrou no carro debaixo de chuva torrencial. Aviso amarelo, disseram. Coisa pouca. Um vento a agitar as árvores em danças quase exóticas, de loucas, as bátegas a ensurdecerem a música na Antena 2, quem sabe, uns lençóis de água a apimentar a condução. Não tinha um destino. O rumo que traçara era o da vida e nem esse obedecera ao desenho colorido a risos, mãos enlaçadas e tardes longas numa rede sustentada nos coqueiros de uma praia de areia branca e água incrivelmente transparente. Reconhecia o ridículo do rabisco enquanto limpava o rosto molhado com as costas da mão.
Partia. Na bagagem levava tudo menos o que seria de esperar. Sempre dissera que não era de fazer listas. No final, acabava invariavelmente por levar o supérfluo. Tinha na mala um vestido de seda vermelha, um xaile preto bordado a dourado com corações do Minho, umas botas de cano alto que usara para montar, dois vasos com tulipas amarelas, um batôn vermelho, uma adaga de prata lavrada, uma fotografia da nespereira em flor que costumava aninhar pássaros junto à janela do seu quarto e uma rede (quem sabe encontrava dois coqueiros onde pendurá-la).
Sem hesitar, pressionou o botão da ignição, acelerou e fez-se à estrada, rumo ao Sul.



domingo, maio 08, 2016

Quando se escreve

(Antonio Mio)


Escrever pode ferir, tanto quanto é capaz de salvar. Ou, então, ser um mero exercício cujo objectivo nunca é totalmente claro para além de macular uma página em branco.
E depois... E depois, há as cartas de amor.


quarta-feira, maio 04, 2016

Diz-me de ti



Diz-me dos lábios molhados no sal da saudade
Diz-me dos beijos longos e sôfregos no olhar
Diz-me da falta, das mãos trémulas, da cegueira
Diz-me da absurda inquietude dos amantes

Diz-me das árvores que se tocam no céu 
como se em pontas delicadas de dedos.


terça-feira, maio 03, 2016

Porque escreves, Maria?

(Pierre Bonnard)


Escrevo. Escrevo desde que me lembro de saber juntar letras, maravilhando-me como se transformavam a cada alteração de ordem. Primeiro foram isso mesmo, puzzles de letras que iam enchendo cadernos de duas linhas, numa ortografia redonda e infantil, sempre feita com mil cuidados, não fossem as palavras ficar feias. Depois, como que por magia, passei a fazer puzzles de palavras e foi aí, quando senti que era capaz de dizer no papel aquilo que queria, que se tornou um vício. Eram as anotações nos livros, os poemas nos cadernos, o diário com cadeado e chave. Hoje, como então, escrevo com uma pulsão prazerosa, acerca de tudo e de nada, mas sempre com todos os meus sentidos alerta. O blog veio trazer uma dimensão nova ao encantamento: leitores. Mais ainda, leitores que comentam, opinam… As minhas palavras são, agora, uma ponte.

(texto escrito no âmbito do desafio lançado por Miss Smile para respondermos à pergunta "Porque escreves?)