sábado, abril 30, 2016

Feitiço

(Yinka Shonibare)


Naquele dia, a fada entrou pela janela do quarto e, enquanto ela dormia, disse:

- Quando voltares a sentar-te num baloiço e fores capaz de repetir a proeza de fazê-lo voar até dares a volta ao suporte superior sem caíres ou sem deixares que o vestido se te descomponha com o movimento, só então, serás livre.

Dali em diante, os governantes mandaram que fossem retirados todos os baloiços de onde os pudesse encontrar. Havia uns, poucos, em quintais de muros demasiado altos para serem transpostos. Nunca seria livre.


terça-feira, abril 26, 2016

Sonho

(daqui)


Cravou as garras no dorso da vida à falta de rédeas para segurar nas mãos. Com os joelhos apertou-a entre as pernas, esporeando-a com os pés nus. Assim a cavalga, em pêlo, cabelos soltos ao vento, livre.


segunda-feira, abril 25, 2016

Sou (de) Abril



Sou (de) Abril. Não sei se adivinhava, quem me foi buscar ao outro lado da vida, que era em Abril que queria olhar o mundo. É Primavera, o sol é  tímido, ainda, mas benfazejo, há flores a desabrochar e as folhas despontam nos ramos secos das videiras, abrindo-se como se sorrisos. Chove, também, como se lágrimas. Uma gaivota cruza o céu azul-mar. Completo, Abril, até no cravo que se fez vermelho-canção, vermelho-revolução. 
Sou (de) Abril!


sábado, abril 23, 2016

Milhões

(Soldados do Corpo Expedicionário Português em La Lys. Daqui)

Aníbal Augusto Milhais (Murça, Valongo, 9 de Julho de 1895 — 3 de Junho de 1970), mais conhecido por Soldado Milhões, foi soldado na I Guerra Mundial e a sua coragem na Batalha de La Lys fez dele o único soldado deste país a alguma vez receber a Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, no campo de batalha.
O soldado Milhões, como ficou conhecido, abandonou a trincheira onde era o único sobrevivente, enfrentou colunas alemãs com a sua metralhadora Lewis, Luísa, para os portugueses, que ia reabastecendo de munições encontradas enquanto andarilho do campo de batalha. Durante essa jornada, salva um médico escocês de morrer num pântano e é ele que relata aos aliados a coragem de Milhais.
Foi o comandante Ferreira do Amaral, aquando do seu retorno para junto dos camaradas portugueses, que o saudou, dizendo: "Tu és Milhais, mas vales Milhões!"
Valongo viu o seu nome alterado no Parlamento para Valongo de Milhais, em honra dos feitos do filho da terra.
Milhões, contudo, não teve vida condicente com o nome. As honrarias não lhe encheram a barriga, nem a dos seus descendentes. Num programa recente em que a sua história foi recordada, um deles afirmava, numa voz baça: “Cando caurcei os primeiros sapatos, tinha 15 anos.”
Nunca tinha ouvido falar de Milhões, mas estas palavras, ditas assim, trouxeram-me ecos da miséria e das glórias vãs de tempos idos. Tempos que começam a parecer extraordinariamente presentes.


quinta-feira, abril 21, 2016

Suspiros

(daqui)

Despira a bata branca logo à saída do colégio. Que nervos lhe dava a bata! Logo agora, que a irmã convencera a mãe a dar-lhe uns vestido novos lindos, lindos. O vermelho de renda, então! Queria era mostrar-se, assim alindada, no caminho para casa. Ia-se mirando nos vidros das montras, com uma disfarçada vaidade.
Chegada a casa, lembrou-se que faltava apenas uma coisa, um traço de lápis preto nos olhos! A mana fazia e ficava-lhe tão bem! Com pézinhos de lã, foi até ao quarto dela, abriu a gaveta da mesinha de cabeceira, pegou no lápis e, debruçando-se na cómoda para se ver melhor ao espelho, começou a delinear o olho esquerdo cuidadosamente.
CLARA! O MEU LÁPIS! A mão escorregou e o traço ziguezagueou sem salvação. És bonita sem lápis, Clarinha! Quando fizeres catorze anos, prometo que te dou um!
Pois, bonita sem lápis! Dizia a mana, que o usava todos os dias e tinha os rapazes da vizinhança todinhos a quererem agradar-lhe... Se ao menos tivesse podido acabar de delinear os olhos antes de ir à varanda ver o Carlos José passar!

Mal sabia Clara que, pouco tempo depois, seria o Luís a roubar-lhe suspiros. E, não sabia ainda, que suspirar não era o que de melhor havia na paixão.


domingo, abril 17, 2016

Treze anos

(Balthus)


Descobrira que tinha um coração diferente. Treze anos. Crescera inusitadamente esse Verão de férias grandes. Mas eram mesmo grandes, as férias, com Junho, Julho, Agosto e Setembro adentro, num frenesim de correrias, jogos da macaca, do esconde-esconde e da cabra-cega, sorvetes da Rajá, língua da sogra e perseguições ao Nelinho da Tina que lhe chamava "minha beleza", provocando uma saraivada de pedras apanhadas no caminho. Mas, como estava a dizer, o seu coração não era o mesmo. Dava por ele a descompassar. Ora, o descompasso não era permanente, dava-se aquando Carlos José se lembrava de atalhar o caminho para o rio e passava mesmo ali, à beirinha da sua varanda. Então quando resolvia desviar o olhar para cima e abrir um sorriso... Jesus! É que até tinha que respirar fundo, não fosse o coração saltar-lhe do peito!