terça-feira, abril 12, 2016

Etiqueta

(Stephane Bienfait)

Foram muitos os dias em que, uma vez por semana, logo pelas nove horas da manhã, nos alinhávamos, corpos espigados de adolescentes disfarçados nos uniformes largos, em azul-marinho, descendo até abaixo dos joelhos, em exercícios de equilíbrio instável. 
Barriga para dentro! Peito para fora! Tu, Mariana, também não é para espetares o peito para fora do vestido, menina! Cabeças direitas! Os livros não podem cair! Olha-me esses braços, Clara, que parecem umas libelinhas tontas! Pose, meninas! Pose!
Aprendíamos a andar com a postura de uma senhora, antes de nos sentarmos, joelhos juntos, pernas  igualmente juntas, flectidas e levemente inclinadas para a direita. O brilho de riso no olhar, porém, fugia às regras, tal como os braços de Clara, soltos, em danças de libelinhas.


segunda-feira, abril 11, 2016

Caminhos

(Kerry Skarbakka)


Sobre ele caíra a ira dos bravos, dos sábios, dos bons. Um de entre eles, julgara-se. Houvera jogos de xadrez, viagens exóticas, jantares regados com vinhos absurdamente caros. Mais, tinham frequentado o mesmo sofisticado e restrito clube onde partilhavam a sala de fumo de onde saíam com o travo dos Cohibas esplendidos e o sorriso displicente dos que são superiores. Agora, relegado para a cervejaria da esquina, restava-lhe sair para o vento da rua e fumar uma cigarrilha junto com alguns clientes que lhe falavam do tempo e da política corriqueira que se segue nos tablóides. 
Ele ainda não sabe mas os que julgara bravos, sábios e bons eram, afinal, covardes, ignorantes e maus. A sua desgraça poderia ser a sua redenção.


sábado, abril 09, 2016

"A vida é um hábito" Samuel Becket

(Elmer Bischoff)


"(...) o nome da mulher a quem me uni, pouco tempo depois, o apelido era Lulu. (...) Ela também me contou o seu sobrenome, mas esqueci. Eu devia ter anotado, num pedaço de papel, não gosto de esquecer nomes próprios. (...) Conheci-a num banco (...) Me dê um lugar, disse ela. (...) 
O que se chama amor é o exílio, com um cartão-postal da terra natal de vez em quando, (...)."

Samuel Beckett, in "Primeiro Amor", tradução de Célia Euvaldo para a Editora Cosac& Naify








Descobrira que era capaz de partilhar. Bem, talvez não fosse exactamente partilhar mas sim sobreviver da partilha. Qual o significado de uma canção em repeat que se quer e, simultaneamente, não se quer ouvir? 




quarta-feira, abril 06, 2016

Um pássaro no peito

(Tony Lima)



Lava-se com lágrimas e veste-se com os fiapos de esperança que lhe restam. São escassos, estes, quase não lhe cobrem a nudez trémula nas manhãs que ainda se anunciam frias. Disseram-lhe que ainda há sol por vir, árvores por florescer e pássaros em trânsito pelos céus com destino ao seu olhar. É disso que Clara aquece a pele. Quem sabe vêm, os pássaros, e um deles se aninha no seu peito.



domingo, abril 03, 2016

Geografia

(José Rodrigues)


 "A Geografia é uma ciência que tem como objecto principal de estudo o espaço geográfico que corresponde ao palco das realizações humanas." (definição daqui)


sexta-feira, abril 01, 2016

O deus dos ateus



(Caravaggio)


Ellen Bass - Ode To The God Of Atheists

The god of atheists won’t burn you at the stake
or pry off your fingernails. Nor will it make you
bow or beg, rake your skin with thorns,
or buy gold leaf and stained-glass windows.
It won’t insist you fast or twist
the shape of your sexual hunger.
There are no wars fought for it, no women stoned for it.
You don’t have to veil your face for it
or bloody your knees.
You don’t have to sing.

The plums that bloom extravagantly,
the dolphins that stitch sky to sea,
each pebble and fern, pond and fish
are yours whether or not you believe.

When fog is ripped away
just as a rust red thumb slides across the moon,
the god of atheists isn’t rewarding you
for waking up in the middle of the night
and shivering barefoot in the field.

This god is not moved by the musk
of incense or bowls of oranges,
the mask brushed with cochineal,
polished rib of the lion.
Eat the macerated leaves
of the sacred plant. Dance
till the stars blur to a spangly river.
Rain, if it comes, will come.
This god loves the virus as much as the child.

(do blog do Luís Soares)




Ellen Bass - Ode  ao Deus dos Ateus

O deus dos ateus não te queima numa estaca
nem te arranca as unhas. Sequer te fará
vergar ou implorar, castigar a tua carne com espinhos
nem comprar folhas de ouro ou janelas de vitrais.
Não te forçará a jejuar ou a distorcer
a expressão do teu apetite sexual.
Não há guerras nem mulheres apedrejadas em seu nome.
Não tens que cobrir a face com um véu
nem esfacelar os joelhos
ou cantar em seu nome.

As ameixieiras que florescem exuberantemente
os golfinhos que costuram o céu ao mar
cada seixo, feto, lago, peixe
pertencem-te, acredites ou não.

Quando o nevoeiro se dispersa
como se um dedo vermelho deslizasse pela lua
não é uma recompensa do deus dos ateus
por ter acordado a meio da noite
tremendo, descalço,  no campo.

Este deus não se enternece com almíscar
nem com incenso ou taças de laranjas
a máscara luzidia de cochinilla
costela polida do leão.

Come as folhas maceradas
da planta sagrada. Dança
até que as estrelas sejam um rio de lantejoulas.
Se a chuva cair, cairá.
Este deus ama igualmente o vírus e a criança.

(tradução de Maria Eu)