sábado, abril 04, 2015

Estio

(Manos Markakis)


Fizera das palavras rio, corrente em ressalto pelo leito, salpicando as margens, na ânsia de chegar ao mar, de se entregar às ondas, de saber do gosto a sal. Com o Estio, veio a seca. As palavras, feito rio, ficaram dentro do peito, feito dique. 


Memórias de uma Páscoa longínqua

(imagem daqui)

Havia aquele perfume a licor de leite pela casa, a garrafa à espera que o líquido passasse pelo papel pardo de onde escorria, dourado e doce. Começava-se na Sexta-feira a fazer os biscoitos de limão, o bolo de laranja e os queques. No Sábado, era a vez da torta de chocolate, do leite-creme, das empadas de galinha, da bola de carne. À noite, já ficava a toalha de renda branca na mesa da sala de jantar, acomodando ao centro um arranjo profuso em cravos e gipsofila. Sim, porque no Domingo, a excitação era grande. A missa, muito cedo, o estômago vazio para podermos comungar e que, de vez em quando, fazia os mais débeis fraquejar num desmaio. ainda antes de receberem a  hóstia, ou beijarem a Cruz.
Regressadas a casa, enquanto as mais velhas da família punham as iguarias na mesa, cabia-me a tarefa de ir buscar alecrim e desfolhar rosas para, numa mistura perfumada e colorida, atapetar o trajecto desde o portão até à entrada de casa. Por ele viriam o Padre, os Mordomos, o escolhido carregando a Cruz de prata, mais o menino da água-benta, vizinhos, conhecidos e curiosos, perante os quais exibia, orgulhosa, o vestido a estrear e os meus dotes de anfitriã, oferecendo os pratos cheios de doces e salgados, com um sorriso aberto. Os copos e os cálices, esses, era o meu pai que enchia de vinho branco, sumo de laranja ou licor de leite. A minha mãe ficava sentada, a fazer companhia ao Padre, e a olhar, aflita, para o chão de madeira que ia sendo pisado pelos sapatos sujos da terra dos caminhos e que dera tanto trabalho a encerar (duas mulheres a dar ao braço um par de horas).

(obrigada ao Outro Ente, pela lembrança)




(perdoem a escolha, sei que ainda não é dia, mas é assim que lembro a Páscoa, com alegria)

sexta-feira, abril 03, 2015

Sem asas



(José Rodrigues)



Alla Fine di un altro Giorno

Now we are women grown, and men,
That were but careless children then;
Wise with our realistic lore,
The shining mystery we explain,
Only a vapor born of rain!
And dream of angels' wings no more.


Mary Bradley - Angel's Wings



No final de um outro dia

Agora, somos mulheres adultas, e homens,
Que então não eram senão crianças descuidadas;
Sensatos no nosso conhecimento prático,
Explicamos o mistério da resplandecência,
Apenas vapor nascido da chuva!
Não mais sonhámos com asas de anjos.

Mary Bradley - Asas de Anjo, traduzido por Maria Eu

quinta-feira, abril 02, 2015

Marcas

(David Anthone)


Ficara-lhe uma sombra na esquina da alma. Era Primavera. Tentara a velha técnica da limpeza geral que vira antepassados usar antes da Páscoa. Mas a sombra, essa, nem sequer  se desvaneceu.


Do amor primeiro

Tu já sabias, Manoel, em 1942, como contar do amor primeiro. Carlitos e Teresinha, os meninos que ficaram no coração de muitos de nós.




quarta-feira, abril 01, 2015

Livro inacabado


Maria do Carmo inquieta-se. Cansaço. Muito. Viagens curtas e rápidas. Inspecções. Hospitais. Grupos de pessoas. Um agora, outro mais logo. Desgasta-se em conversas que lhe ferem os ouvidos e a boca enquanto se ausenta por dentro. Senta-se no escritório, cruza e descruza as pernas na leitura de um livro que nunca fora capaz de acabar. Olha, nervosamente, em volta. As chaves do carro estão ali. Só o conduziu uma vez. Potente, desportivo, veloz, muito veloz. Levanta-se de um salto, agarra as chaves e desce as escadas, duas a duas, até à garagem. (foda-se! esqueci-me dos documentos!) Volta atrás e procura a carteira. Corre de novo. Parece que o mundo lhe foge. As estradas lhe fogem. Os estofos de couro ainda cheiram a novo. Tem que pensar como fazer com as mudanças automáticas. Arranca um pouco aos soluços, vai avançando para a rua e, logo, em direcção à autoestrada. Começa a acelerar. Cento e quarenta é o habitual. Cento e sessenta. Cento e oitenta. Ah! Que se lixe! O pé pesa mais e mais, 220, marca o indicador de velocidade. Quer mais. Atinge os 240. Voa do lado esquerdo. Conhece bem o trajecto. Sabe que, lá à frente, há uma curva apertada. (e se?) Respira fundo e desacelera. (hoje, não!) Segue em condução rápida e desportiva, sentindo o roncar do motor. Em pouco tempo, estará em casa, a ler o livro que não terminou.