Do reconhecimento da geografia das palavras resultara a sedução. No relevo do corpo, atravessado em gestos longos dos dedos feitos viajantes, revelou-se a paixão. Primeiro, ele. Depois, ambos. Depois, ela.
Caberia, nas viagens que faziam, o tamanho dos seus dois corações?
Desde pequena que lhe sobrava uma ânsia de partir. Quis saber, primeiro, como era o mundo. Levaram-na da casa com a varanda decorada a begónias para dormir num salão onde se perfilavam camas de ferro de um acanhamento só irmanado pelas mulheres que lhe ditavam as horas de deitar e levantar, vigiando-lhe os gestos diários. Aprendeu que nunca se obedece quando a liberdade periga. Pode-se, quando muito, fingir obediência enquanto se estudam formas de a boicotar.
Partiu, a seguir, para experimentar o sol a qualquer custo, em leituras pela noite fora. Todas menos as obrigatórias.
Num Verão encontrou-se com a Língua Portuguesa de manhã até à noite, fechada, agora por vontade sua, com as palavras a sufocarem-lhe a voz e a esmagarem-lhe o peito de emoção.
Levava livros abraçados para a cama, ainda que fossem os que antes tinham sido obrigatórios.
Caía-lhe, então, o mundo em catadupa, na estreiteza do leito, alargando-lhe o horizonte para lá de todas as paredes, reais ou imaginárias.
Kusum ve ben bir aynada
uyuyoruz, kafesimiz yatagimiz
yüzlerimiz eslerine baka baka
sonsuz kar altinda uyuyoruz
kusum ve ben.
Esim ve ben kizil bir bagla
bagliyiz birbirimize
Çözülürse yoksulluk sevinir
Aynamizin içinde tek bu bag...
Kizil kiskanç esim kusum ve ben...
Nilgun Marmara
My bird and I
My bird and I are fast asleep
reflected in a mirror, our cage our bed
our visages reflecting that of one another
we sleep beneath the eternally falling snow
my bird and I.
A crimson ribbon binds us – my mate and I
indelibly together.
Destitution would delight in its severance.
In our mirror there's naught beyond this bond...
This crimson tie between us -- my mate my bird and I...
O meu pássaro e eu profundamente adormecidos
reflectidos num espelho, a nossa gaiola, nossa cama
os nossos rostos reflectindo-se um no outro
dormimos sob a neve que cai ininterruptamente
o meu pássaro e eu.
Une-nos uma fita carmesim - ao meu homem e a mim
indelevelmente juntos.
O desamparo regozijar-se-ia se esta se rompesse.
No nosso espelho há um nó para além deste elo
Esta fita carmesim que nos ata - o meu homem, o meu pássaro e eu...
Tradução, a partir da versão em Inglês, de Maria Eu
Insinua-se a morte por estes dias com uma agudeza gélida. Passeia-se pelas casas, acompanha alguns, com displicência, até ao hospital. De quando em vez ausenta-se, fica a fumar um cigarro, às vezes dois ou três, e então regressa e instala-se, definitivamente.
É uma grande filha da puta, a morte! Diz que vai só ali matar o vício do tabaco para disfarçar...
Visitava-a o amor noite adentro, em passos leves. Nunca o viu. Porém, de manhãzinha, havia sempre um pássaro em trinados doidos no beiral da janela do seu quarto.