sábado, março 07, 2015

Geografia



Do reconhecimento da geografia das palavras resultara a sedução. No relevo do corpo, atravessado em gestos longos dos dedos feitos viajantes, revelou-se a paixão. Primeiro, ele. Depois, ambos. Depois, ela.
Caberia, nas viagens que faziam, o tamanho dos seus dois corações?



sexta-feira, março 06, 2015

Viajar


Desde pequena que lhe sobrava uma ânsia de partir. Quis saber, primeiro, como era o mundo. Levaram-na da casa com a varanda decorada a begónias para dormir num salão onde se perfilavam camas de ferro de um acanhamento só irmanado pelas mulheres que lhe ditavam as horas de deitar e levantar, vigiando-lhe os gestos diários. Aprendeu que nunca se obedece quando a liberdade periga. Pode-se, quando muito, fingir obediência enquanto se estudam formas de a boicotar.
Partiu, a seguir, para experimentar o sol a qualquer custo, em leituras pela noite fora. Todas menos as obrigatórias. 
Num Verão encontrou-se com a Língua Portuguesa de manhã até à noite, fechada, agora por vontade sua, com as palavras a sufocarem-lhe a voz e a esmagarem-lhe o peito de emoção.
Levava livros abraçados para a cama, ainda que fossem os que antes tinham sido obrigatórios.
Caía-lhe, então, o mundo em catadupa, na estreiteza do leito, alargando-lhe o horizonte para lá de todas as paredes, reais ou imaginárias.


quinta-feira, março 05, 2015

Laço carmesim

(Gabor Breznay)

Kuşum ve Ben

Kusum ve ben bir aynada
uyuyoruz, kafesimiz yatagimiz
yüzlerimiz eslerine baka baka
sonsuz kar altinda uyuyoruz
kusum ve ben.
Esim ve ben kizil bir bagla
bagliyiz birbirimize
Çözülürse yoksulluk sevinir

Aynamizin içinde tek bu bag...
Kizil kiskanç esim kusum ve ben...

Nilgun Marmara



My bird and I

My bird and I are fast asleep
reflected in a mirror, our cage our bed
our visages reflecting that of one another
we sleep beneath the eternally falling snow
my bird and I.

A crimson ribbon binds us – my mate and I
indelibly together.
Destitution would delight in its severance.

In our mirror there's naught beyond this bond...
This crimson tie between us -- my mate my bird and I...

Translation by Suat Karantay
(daqui)



O meu pássaro e eu

O meu pássaro e eu profundamente adormecidos
reflectidos num espelho, a nossa gaiola, nossa cama
os nossos rostos reflectindo-se um no outro
dormimos sob a neve que cai ininterruptamente
o meu pássaro e eu.

Une-nos uma fita carmesim - ao meu homem e a mim
indelevelmente juntos.
O desamparo regozijar-se-ia se esta se rompesse.

No nosso espelho há um nó para além deste elo
Esta fita carmesim que nos ata - o meu homem, o meu pássaro e eu...

Tradução, a partir da versão em Inglês, de Maria Eu



quarta-feira, março 04, 2015

Gelo

(foto daqui)


Insinua-se a morte por estes dias com uma agudeza gélida. Passeia-se pelas casas, acompanha alguns, com displicência, até ao hospital. De quando em vez ausenta-se, fica a fumar um cigarro, às vezes dois ou três, e então regressa e instala-se, definitivamente. 
É uma grande filha da puta, a morte! Diz que vai só ali matar o vício do tabaco para disfarçar...


Entrega

(Marc Chagall)


Enleados

Namorados

Ternos

Risonhos

Emocionados

Gorjeantes

Amantes




Escaldantes

Nus

Tectónicos

Ronronantes

Excitados

Gulosos

Amantes

segunda-feira, março 02, 2015

Nocturno


Grata a Luís Desenha


Visitava-a o amor noite adentro, em passos leves. Nunca o viu. Porém, de manhãzinha, havia sempre um pássaro em trinados doidos no beiral da janela do seu quarto.