sábado, fevereiro 07, 2015

Perto do centro, no olho do furacão

(Manuel Amado)


Perto do centro

Este dia, este  momento.
O tempo único e imóvel atravessando-nos aos dois
como a uma superfície incrédula.
Eu e tu, antes e depois: tu, a Mesma.
E, no entanto, pouco pode o amor alcançar
senão a minha mão na tua mão.
O meu desejo é maior do que eu,
e eu maior do que o meu desejo maior do que eu.
Também o tempo se move imovelmente no tempo,
a esperança na incerteza,
o desejo na convicção da eternidade.
O amor é só um estremecimento de azul. 
Perto do centro,
onde a vida e a morte (ambas desprezam
aqueles que amam) riem.

Manuel António Pina





Há um. Depois, há outro.
Há um mais um, igual a dois que, afinal, não é assim. 
No fim, assim é que é, um mais um, igual a um
rindo, perto do centro, no olho do furacão
onde nada temem, nem a vida, nem a morte.

quinta-feira, fevereiro 05, 2015

Pecado

(Ivana Vostrakova)



"Apesar da minha educação cristã, ou por causa dela, sempre me recusei a viver sujeita à ameaça do pecado. As grandes indústrias vêm tentando convencer-nos de que é possível tirar o veneno ao prazer e ficar apenas com o prazer: café sem cafeína, cerveja sem álcool, cigarro sem nicotina - amor platónico. Quanta estupidez. Quem bebe café procura a exaltação da cafeína. Quem pede uma cerveja numa tarde de sol quer refrescar o corpo, sim, mas também quer soltar o espírito. Se é para pecar quero o pecado inteiro. "


José Eduardo Agualusa, in "A Educação Sentimental dos Pássaros"




Percorria o caminho cinza como de costume, tentada pelo vermelho daquela outra via. Tinham-na avisado que aquela era a cor do pecado. Começou por vestir uma camisola vermelha. Logo, num dia de chuva, abriu provocadoramente um guarda-chuva da mesma cor. No trajecto de regresso, toda ela era cor de sangue. Palmilhara o caminho do pecado e... gostara!

Atracção




"O que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão."

Clarice Lispector








Deixava-se enternecer com aquele gesto fugaz de uma mão que, nunca tocando a sua por completo, ficava tão perto que lhe sentia o calor.

terça-feira, fevereiro 03, 2015

Espera


(Loui Jover)

Como esta
       
          coitado do mário cesariny
               coitado dele e também do álvaro de
               campos e também de mim que
               sei da solidão que me farto

como esta sau
dade vita
lícia preenche
a tua ausência

como se prende
ao teu lugar
com fundas, férteis,
tuas raízes

morada que
tu habitas
com ela te
reconcilias

tem o teu nome
a tua idade
senta-se à mesa
no teu lugar

Manuel António Pina





No centro da minha espera, jaz a forma exacta do teu corpo, pronta a receber-te quando vieres.

segunda-feira, fevereiro 02, 2015

Escadas

(db Waterman)


Subia as escadas de pedra escura e levemente esverdeada pela humidade em cadência hesitante, cabeça baixa e ombros descaídos. Era dia de feijoada à Transmontana, pelos vistos, daquela com couve e muito chouriço. Já sentia o cheiro ao quinto degrau (havia ainda mais quinze para superar) e não conseguiu parar a saliva que lhe crescia na boca na antecipação do almoço. 
Crispou as mãos com raiva de si mesmo por desejar comer nesse momento. As unhas cravaram-se-lhe na polpa macia e clara deixando marcas fundas e vermelhas. 
O que aconteceu às tuas mãos? iriam perguntar-lhe. Apressou uma desculpa mas não lhe parecia que acreditassem ter-se defendido de punhos cerrados de um ataque do cão da Dona Joaquina, a vizinha da casa verde água. Ora! Fossem à merda mais as suas perguntas. Beijaria a cunhada e as crianças, apertaria a mão ao irmão e sentar-se-ia à mesa para comer a feijoada. Afinal, a casa era também sua, porque ali crescera, e o cadáver que jazia na sala principal, rodeado de velas e de beatas a rezar o terço, era o do seu pai.

domingo, fevereiro 01, 2015

Houvesse um colo


(Lars Theuerkauff)

Se eu pudesse dizer-te: - Senta aqui
nos meus joelhos, deixa-me alisar-te,
ó amável bichinho, o pêlo fino;
depois, a contra-pêlo, provocar-te!
Se eu pudesse juntar no mesmo fio
(infinito colar?) cada arrepio
que aos viajeiros comprazidos dedos
fizesse descobrir novos enredos!
Se eu pudesse fechar-te nesta mão,
tecedeira fiel de tantas linhas
de tanto enredo imaginário, vão,
e incitar alguém: - Vê se adivinhas...
     Então um fértil jogo amor seria.
     Não este descerrar a mão vazia!

Alexandre O'Neill