quarta-feira, dezembro 31, 2014

Do dia derradeiro e do primeiro

(Babaroga Vitomirov)

PASSAGEM DO ANO

O último dia do ano
Não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
Farás viagens e tantas celebrações
De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia
E coral,

Que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
Os irreparáveis uivos
Do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
Não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
Onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
Uma mulher e seu pé,
Um corpo e sua memória,
Um olho e seu brilho,
Uma voz e seu eco.
E quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.

Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa, já se expirou, outras espreitam a morte,
Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
E de copo na mão
Esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
O recurso da bola colorida,
O recurso de Kant e da poesia,
Todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
Lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.


Carlos Drummond de Andrade


Assim se vive o dia primeiro, entupidos de vida, olhos e boca ávidos dela. Assim somos o que de nós fazemos e o que fazem de nós. Assim existimos.

terça-feira, dezembro 30, 2014

Novo ano

(Ana Paula Barros)

O que significa começar um novo ano? Nada. Os anos, tal como os contamos, não passam de convenções. Sim. Também eu desejo muita alegria e felicidade aos que me acarinham com a leitura do que publico neste recanto e (que me desculpem os silenciosos) ainda mais aos que me aquecem o coração com palavras. Há, porém, algo que é claro para mim, não vou terminar um ano e começar outro, o meu ano acaba quando alguém se despede de mim, quando se me aperta o coração de tanta falta, quando os que amo estão infelizes, quando me mascaro sem que seja Carnaval. 
Cada vez se me acabam mais anos. Que os vossos possam começar cada vez mais.

segunda-feira, dezembro 29, 2014

Minimal





The Minimal


I study the lives on a leaf: the little

Sleepers, numb nudgers in cold dimensions,

Beetles in caves, newts, stone-deaf fishes,

Lice tethered to long limp subterranean weeds,

Squirmers in bogs,

And bacterial creepers

Wriggling through wounds

Like elvers in ponds,

Their wan mouths kissing the warm sutures,

Cleaning and caressing,

Creeping and healing.


Theodore Roethke




(Vyacheslav Mishchenko)



Minimal


Estudo as vidas numa folha: os pequenos

Dorminhocos, traquinas paralisados em dimensões frias,

Escaravelhos em cavernas, salamandras, peixes-escorpião surdos,

Piolhos colados a ervas subterrâneas compridas e débeis,

Contorcionistas em pântanos,

E répteis bacterianos

Contorcendo-se feridas adentro

Como minúsculas enguias em lagos, 

As suas bocas lívidas beijando suturas quentes,

limpando e acariciando,

rastejando e cicatrizando.


Theodore Roethke, tradução de Maria Eu



domingo, dezembro 28, 2014

Silêncio

(At Mr. Wong's)




Até Amanhã


Sei agora como nasceu a alegria,

como nasce o vento entre barcos de papel,

como nasce a água ou o amor

quando a juventude não é uma lágrima.


É primeiro só um rumor de espuma

à roda do corpo que desperta,

sílaba espessa, beijo acumulado,

amanhecer de pássaros no sangue.


É subitamente um grito,

um grito apertado nos dentes,

galope de cavalos num horizonte

onde o mar é diurno e sem palavras.


Falei de tudo quanto amei.

De coisas que te dou

para que tu as ames comigo:

a juventude, o vento e as areias.


Eugénio de Andrade







sábado, dezembro 27, 2014

De como a glosa se compara ao original

(Ceslovas Cesnakevicius)

Amor é um fogo que arde sem se ver

Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se e contente;
É um cuidar que ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor? 

Luís Vaz de Camões



 


Amor é um arder que se não sente

Amor é um arder que se não sente;
É ferida que dói, e não tem cura;
É febre, que no peito faz secura;
É mal, que as forças tira de repente.

É fogo, que consome ocultamente;
É dor, que mortifica a Criatura;
É ânsia, a mais cruel e a mais impura;
É frágoa, que devora o fogo ardente.

É um triste penar entre lamentos;
É um não acabar sempre penando;
É um andar metido em mil tormentos.

É suspiros lançar de quando em quando;
É quem me causa eternos sentimentos.
É quem me mata e vida me está dando.



Abade de Jazente (1719-1789)

sexta-feira, dezembro 26, 2014

Terminar um conto


( Eva Navarro)

"Talvez nada tivesse acontecido se ela não começasse a reler Jane Eyre .
(...) Se eu soubesse que tu vinhas, tinha apanhado rosas... A casa está cheia de rosas.
(...) Ele continuara a desenhá-la, a pintá-la todos aqueles anos.  (...) 
Sentiu vontade de rir. Mas era porque tinha medo, muito medo.
Eu vou-me embora amanhã de manhã.
Ele sorriu.
Já disseste isso três ou quatro vezes.
Eu sei.
Ela sentou-se no sofá. Ele ajeitou as almofadas à sua volta, como fazia antigamente. Depois pegou na garrafa de vinho que estava em cima da mesa e encheu dois copos.
Mas ficas aqui esta noite.
Está bem.
Ele tirou um disco da estante, um velho disco de vinil. Chopin.
(...) De repente, ela teve a impressão de que adormecera durante alguns segundos. Mas não podiam ter sido só uns segundos. A noite já chegara e não se via nada do outro lado da janela.
O medo voltou, mais forte do que nunca.
Acho melhor ir embora.
Ele sorriu.
Tu ficas aqui.
Ela levantou-se. E então compreendeu que não conseguia andar. No nevoeiro fraco que começava a envolvê-la, pensou que teria de aprender a voar, teria de aprender a nadar, para fugir dali.

Ana Teresa Pereira, in "Quando estávamos vivos"




Enquanto sentia o chão a fugir-lhe debaixo dos pés, tudo começou a fazer sentido. A casa cheia de rosas, o sorriso dele onde não havia surpresa pela sua chegada, o gosto levemente amargo do vinho.
Ele tinha estado sempre à sua espera e, agora que ela viera, nunca a deixaria partir de novo.

Maria Eu