sábado, dezembro 06, 2014

Falta

(Rebecca McGetrick)

Para Maria Antónia, a coisa mais estranha não era sentir-lhe a falta, era sentir saudades dos seus ciúmes. Talvez por (pres)sentir que, nele, aquele ciúme poderia ser o que mais de semelhante havia ao amor.


sexta-feira, dezembro 05, 2014

O agente traído



 (imagem daqui)


Christine aconchegou-se no banco e pousou a cabeça no meu ombro. Ainda a sentia tremer. O carro de mudanças automáticas permitia-me abraçá-la sem fazer perigar a condução. Apenas um pormenor me deixara a rememorar o que acontecera no restaurante, a insistência de Christine em ficar até que vissemos quem necessitara de assistência urgente. Depressa esqueci esse detalhe absurdo. Chegáramos ao hotel e, logo no elevador, os beijos inflamados e as mãos daquela mulher ardente por dentro do meu casaco fizeram-me arrastá-la para o quarto e atirá-la para a cama sem delongas.

Nem me dei conta de que, ao despir as calças, a soqueira tinha resvalado para o chão, indo parar debaixo da cadeira onde jaziam, amarrotadas, as roupas de Christine.

Acordei com o sol a bater-me na cara e a estranha sensação de não me conseguir mexer. Abri os olhos, a custo, e vi Christine de pé, já vestida, com uma Smith & Wesson .38 na mão. Estava manietado e, nitidamente, tinha sido drogado.
- Já acordou! disse, como se estivesse mais alguém no quarto.
- Veremos quem bate melhor, agora! respondeu uma voz masculina.

Voltei a cara para o lado esquerdo, de onde viera a resposta. O motherfucker estava sentado no sofá, cara inchada, um dos olhos fechados por baixo de um papo roxo, com a minha soqueira na mão.

(Com as minhas desculpas ao Xilre, por ter ousado dar continuidade à sua história e com gratidão por despertar esta vontade. Com o meu agradecimento ao xpto, por me fazer recordar as dezenas de livros policiais que se escondem no lugar mais inacessível das minhas estantes.)

 

quinta-feira, dezembro 04, 2014

Facas


(Caroline Murtagh)

depois de ler A Faca Não Corta (de Herberto Helder)

Ah, essa faca
não corta o fogo
mas corta
o coração da pedra
florescendo
em palavras-pétalas
de ouro

(eu disse ouro?
mas quero dizer
brasa
carvão em brasa
ardendo
na fornalha)

e corta a veia
no fio
do horizonte

deixando ver
um sangue
delicado

voz abafada

grito nascendo

dessa faca
no fogo
desse corpo

(eu disse corpo?
mas quero dizer
treva
Ungrund *
buraco negro
da alma
ferida
mortalmente

Yvette Centeno


* conceito do filósofo alemão Jacob Bohme, por vezes atribuido a Eckhart, que significa (simplisticamente) "abismo interior".





Há facas 
invisíveis
gumes afiados
que cortam 
mais fundo

Há facas
mais fundas
que as vísceras
mais fundas
que o osso

Há facas 
que laceram 
a alma

Maria Eu

quarta-feira, dezembro 03, 2014

Xô! Xô!

(David Wilcox)


Todo o dia me disseram dos desgostos, dos mortos, dos fantasmas. Sentados naquela mesa redonda estávamos quatro e três tinham mais do que outros tantos a acompanhá-los. Filhos no colo, pais apoiados no ombro, avós amparados no braço, maridos e namorados a deambular de um lado para o outro da sala. Não quis falar. Os meus desgostos, mortos e fantasmas ficaram lá dentro, na minha despensa, fechados. Ia lá querer que a avó Liliana, tão delicada, viesse conhecer o avô da Cristina, um brutamontes que dava com a bengala na mulher quando esta se atrasava com o almoço! Mesmo o António, aquele namorado parvo que metia dó, que costumava cantar o "Smoke on the water" (lá bom gosto musical tinha...) enquanto me segurava pela cintura e me abraçava, logo depois de regressado de casa da Joana, onde também cantara Pink Floyd e a abraçara pela cintura, não ia achar piada nenhuma ao namorado da Lena, aquele rapaz de ar enfermo que nunca se ria.
Os filhos, até vá que não vá, à excepção do ranhoso do Gasparzinho que, não lhe bastando ter sempre o nariz cheio de moncos (até fazia bolas ao respirar, blhec), dava cabo de qualquer objecto que encontrasse pela frente, nem que fosse de aço!
Levantei-me da mesa e deixei-os todos lá, os três mais a cambada de gente que cada um trazia consigo. Ora, que vão para o Diabo que os carregue! Ou então, que os tranquem na despensa!



terça-feira, dezembro 02, 2014

Plano de poupança

(Alex Bland)

"A nota de banco
Não ter dinheiro pode ser um problema. Simão não tinha dinheiro. E por silogismo, Simão tinha um problema. Para resolver o problema (solução precária), disfarçou-se de nota graúda (dava jeito ser um homem alto) e dirigiu-se a um banco para se destrocar por matéria fiduciária. Quando chegou à sucursal, disfarçado com a barba hisurta de Vasco da Gama e a gargantilha coçada de Camões, lembrou-se porém que era um velho escudo. E o bancário podia desconfiar da efígie. Na hora h depositou-se nu no cofre central como um plano de poupança."

Tiago Salazar, in Herbário



Presumo que existam muitos com o mesmo problema de Simão. Haja cofres de dimensão suficiente para albergar tantos quantos carecem de dinheiro.

segunda-feira, dezembro 01, 2014

Personificar Edward Hopper


Edward Hopper (1882 - 1967), pintor americano. A pureza e a crueza retratadas tão perto do real que quase são fotografias, os seus quadros, como que parte de um cenário. A solidão, sempre a solidão, a cidade, os dinners, os postos de gasolina que pululam nos subúrbios dos EUA, e o mar, os barcos à vela levados pelo vento e pelas mãos sábias do velejador. Apaixonei-me por Hopper por acaso, confirmei a paixão nas obras que vi no MoMA, em NY,  e no Thyssen, em Madrid. Alimento-a, pois.