segunda-feira, novembro 17, 2014

Deus é um girassol

(Van Gogh)


Um girassol se apoderou de Deus: foi em 
Van Gogh.

Manoel de Barros



Deus (gira)Sol.

domingo, novembro 16, 2014

Coração



Sentiu uma dor repentina. No ecrã do telemóvel, uma mensagem: Dói-me o coração no teu peito.

sábado, novembro 15, 2014

Namoro de pardais


Há uma nespereira a crescer em frente à janela do meu quarto. Dou-me conta de como o tempo passou pela grossura do tronco, o tamanho dos ramos, as folhas largas que teimam em agarrar-se, mesmo durante as chuvadas intensas de Inverno. Já não sei dizer se são perenes, as folhas, só me lembro de as ver ali, uma mancha verde que se pincela de branco na época de floração e de amarelo quando as nêsperas amadurecem.
Os pardais fazem verdadeiras raves no amarelo dos frutos com um nunca mais acabar de trinados e voos em corropios doidos. Às vezes, alguns param num ramito mais afastado e ficam ali, a debicar-se, num namoro descarado.

De que falava eu, mesmo? Ah! Da nespereira! Mas que disparate! O castanheiro é que devia ser tema, já que este não é o tempo das nêsperas e sim o das castanhas.


sexta-feira, novembro 14, 2014

Sobre o Domingos e os sonhos



Ficam aqui, na minha frente, uns absortos e concentrados, outros agitados e a olhar em todas as direcções. Recuo uns anos, uns bons anos. Como foi quando comecei? Tão próxima deles, ainda. Vinte e dois anos. Sofri. Sofri por estar na frente deles, sozinha, sem rede. Sofri com eles, por eles, quando os via chegar encharcados, sem agasalho, mãos roxas... Alegrei-me com eles, por eles, quando escreviam um texto fantástico, criativo, ainda que com erros vários, quando iam além do expectável. 
O Domingos, em particular, tinha sempre o mundo nos olhos. Às vezes, também tinha o mundo na boca e não parava de falar... Era esse mundo que  lhe escorria das pontas dos dedos quando escrevia. Trazia os textos e deixava-os na minha mesa, com um sorriso envergonhado. "Corrige, professora?"
Corrigi. Corrigi naquele ano, em que o Domingos tinha 14 anos, e continuei a corrigir durante alguns anos, ainda. Não havia internet e era pelo seu pé que mos trazia, a casa, sempre animado pela esperança de, um dia, mesmo com erros (há revisores, ora) publicar em forma de imprensa.
Guardo alguns destes textos, batidos numa máquina antiga, dedicados pelo seu punho, "À Maria, com amizade e gratidão".
Não é jornalista, o Domingos, mas ainda lhe brilham os olhos quando nos encontramos e confessa que um dia, quem sabe um dia...

quinta-feira, novembro 13, 2014

Isso faz-se, Manoel?

(Manoel de Barros, por Daniel Lesma)

Isso faz-se, Manoel?

Enlouqueces o verbo, fazes Van Gogh pôr Deus num girassol e os meninos transportar água numa peneira para agora ires embora, Manoel?!
Se encontrares a Elis, diz-lhe que escolhi uma canção dela para a tua partida. Só podia ser brasileira e alegre, a canção, né?


Manoel de Barros (1916-2014), poeta que tocará para sempre o coração da(s) gente(s).

quarta-feira, novembro 12, 2014

Como matar um pato

(David Anthone)

Maria Rita costumava conversar com os patos. Nunca conseguira matar um. Bem que Celina lhe dizia: "É fácil! Não vês que o animal não pensa? Mete-se-lhe a faca no pescoço e pronto, aí vai!"
Naquele dia, resolveu experimentar. "Olhem só do que fui capaz!", disse aos patos, erguendo o alguidar com a cabeça de Celina.


Nota: Nunca matei um pato. Também nunca matei uma Celina!