Ficam aqui, na minha frente, uns absortos e concentrados, outros agitados e a olhar em todas as direcções. Recuo uns anos, uns bons anos. Como foi quando comecei? Tão próxima deles, ainda. Vinte e dois anos. Sofri. Sofri por estar na frente deles, sozinha, sem rede. Sofri com eles, por eles, quando os via chegar encharcados, sem agasalho, mãos roxas... Alegrei-me com eles, por eles, quando escreviam um texto fantástico, criativo, ainda que com erros vários, quando iam além do expectável.
O Domingos, em particular, tinha sempre o mundo nos olhos. Às vezes, também tinha o mundo na boca e não parava de falar... Era esse mundo que lhe escorria das pontas dos dedos quando escrevia. Trazia os textos e deixava-os na minha mesa, com um sorriso envergonhado. "Corrige, professora?"
Corrigi. Corrigi naquele ano, em que o Domingos tinha 14 anos, e continuei a corrigir durante alguns anos, ainda. Não havia internet e era pelo seu pé que mos trazia, a casa, sempre animado pela esperança de, um dia, mesmo com erros (há revisores, ora) publicar em forma de imprensa.
Guardo alguns destes textos, batidos numa máquina antiga, dedicados pelo seu punho, "À Maria, com amizade e gratidão".
Não é jornalista, o Domingos, mas ainda lhe brilham os olhos quando nos encontramos e confessa que um dia, quem sabe um dia...