sábado, novembro 08, 2014

Gente que é gente


(Ana Hatherly)

Essa Gente

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente

Gente que não seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente

Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente

Gente que enterre o dente
que fira de unha e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente

O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente

Essa gente dominada por essa gente
não sente como a gente
não quer
ser dominada por gente

NENHUMA!

A gente
só é dominada por essa gente
quando não sabe que é gente


Ana Hatherly, in "Um Calculador de Improbabilidades"




Tanta gente, gente sem dente que, afinal, nem sequer é gente!

sexta-feira, novembro 07, 2014

Sophia - 95 anos e 15 minutos


(Sophia, por Eduardo Gajeiro)


Para atravessar contigo o deserto do mundo


Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para enfrentarmos juntos o terror da morte

Para ver a verdade, para perder o medo

Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo

Minha rápida noite meu silêncio

Minha pérola redonda e seu oriente

Meu espelho minha vida minha imagem

E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro

Sem espelhos vi que estava nua

E ao descampado se chamava tempo

Por isso com os teus gestos me vestiste

E aprendi a viver em pleno vento



Sophia de Mello Bryner Andresen






Despida de mim visto-me de ti

Dos teus dedos o afago, do teu corpo o agasalho

Do embalo dos teus braços se faz o meu leito


Maria Eu


quinta-feira, novembro 06, 2014

Janela

Todos os dias a via, olhar perdido no horizonte, debruçada na janela. Nos lábios, um leve sorriso, contradizendo a tristeza reflectida no olhar.

(Salvador Dali)

Como podemos esperar

Como podemos esperar.
Aguardar o que nossas mãos possam reter.
Uma palavra. O olhar cúmplice. Se as coisas
têm já o estado do vento
o que nas ruas fica das vozes ao fim do dia.

(...)

como podemos esperar uma noite de lua e vento?

João Miguel Fernando Jorge, in "Direito de Mentir"



quarta-feira, novembro 05, 2014

Óculos de sol

(Flora Borsi)

Havia, na claridade daquele olhar, um mundo inteiro onde só apetecia entrar. Fechou os olhos, tacteou o interior da bolsa até sentir a forma ovalada e a textura levemente rugosa da caixa dos óculos de sol, retirou-os de dentro dela e, sempre de olhos fechados, pô-los, não fossem aqueles olhos levá-la por caminhos demasiado luminosos, cegando-a.


segunda-feira, novembro 03, 2014

Como escolher um rei


Era uma vez um país distante governado por uma rainha sem consorte. O povo já se agitava vendo-a sozinha e os seus mais próximos conselheiros cedo a avisaram que seria sensato escolher marido. Decidiu, então, a rainha, mandar chamar dois cavaleiros que muitas espadas tinham traçado em seu nome.Viriam no mesmo dia, à mesma hora, e responderiam a uma e mesma pergunta.
Cruzaram o portão do castelo no dia marcado, logo que a alba despontava. D. Pedro luzindo traje de gala, cavalgando um puro sangue árabe, ajaezado de ouro e rubis. D. José vestindo roupagens simples, em montada garbosa mas discreta, sem arroubos de riqueza nos arreios.
Já os esperava a rainha, no seu trono de mámore negra, sorrindo, engalanada num vestido encarnado, sem outras jóias que os seus olhos brilhantes e sagazes. Ajoelharam a seus pés, os dois, e só se levantaram quando ouviram a voz firme da soberana dizer:
"-Senhores, levantai-vos! Não estejamos com mais delongas! Ireis, então, responder-me a uma e mesma pergunta: Em sendo meu marido, como me irieis querer na noite de nossas núpcias? Nua ou vestida?"
D. Pedro sorriu, garboso, e logo disse: "-Saiba Vossa Alteza que vos quereria seminua. Assim, poderieis escolher mostrar as vossas virtudes e esconder os vossos defeitos, como rainha que sois."
Houve um breve silêncio antes que D. José se decidisse a falar. Quando, finalmente, o fez, respondeu: "-Senhora, fosse eu a partilhar dessa noite, querer-vos-ia nua. Só nua poderieis mostar vossos defeitos e vossas virtudes como mulher, pois que minha Rainha já vós sois."

E foi assim que D. José se tornou rei.




sábado, novembro 01, 2014

Da estrela do teu corpo


(Lucas Lai)


L'étoile a pleuré rose...

L'étoile a pleuré rose au coeur de tes oreilles,
L'infini roulé blanc de ta nuque à tes reins ;
La mer a perlé rousse à tes mammes vermeilles
Et l'Homme saigné noir à ton flanc souverain.


(Rimbeau)


 A estrela chorou rosa...

A estrela chorou rosa bem no centro das tuas orelhas,
O infinito deslizou, branco, desde a nuca até aos rins;
O mar orlou de pérolas ruivas as tuas mamas vermelhas
E o Homem sangrou negro,  a teu lado, soberana. 

(Tradução livre de Maria Eu)