segunda-feira, setembro 29, 2014

Melhor dar do que receber

Maior Prazer Dar que Receber  

Uma das leis cómicas da vida é a seguinte: é amado não quem dá, mas quem exige. Quer dizer, é amado aquele que não ama, porque quem ama dá. E compreende-se: dar é um prazer mais inesquecível do que receber; a pessoa a quem damos, torna-se-nos necessária, quer dizer que a amamos.
Dar é uma paixão, quase um vício. A pessoa a quem damos, torna-se-nos necessária.

Cesare Pavese, in 'O Ofício de Viver'




 (Albino Moura)

Encontra-se, no acto de dar, a descoberta de uma inesperada alegria, a de ver reflectido no rosto de quem recebe o prazer de receber. Ainda o "dar" se desenha e já experimentamos a antecipação do sorriso, o brilho do olhar, e assim sorrimos também, de olhar igualmente brilhante.

 

domingo, setembro 28, 2014

Os teus olhos luminosos

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio,
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua... — unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... — abre os teus olhos, minha amada,
Enterra-os bem nos meus; não digas nada.


José Régio

(Jack Vettriano)




De mim não queiras vãs promessas,

Nem doçura falsa, nem rodeios…
Cerra os teus olhos luminosos
E aperta-me de encontro ao teu peito

Nas nossas bocas ávidas, gulosas
As nossas línguas se enredem, ansiosas…
E que os meus mamilos enrijeçam, ao toque
Das tuas mãos quentes e sedosas.

E os nossos corpos num… - unidos,
Em trocas de carícias e fluídos,
O teu e o meu sexo encaixando-se.

Por fim… - o arrepio, o cansaço,
O descanso no aperto de um abraço.

Maria Eu



Salvia Divinorum

Ainda que os dias amoleçam na calidez outonal, pode-se gelar por dentro na (ante)visão das perdas.




































(Angel - Giuseppe Sanmartino)


Aurora de la muerte
(Salvia divinorum)


Fue fumar y esfumarte
de tu mundo y de ti
hacia tu mundo oscuro.
Fue tan sólo un momento
que no tuvo principio y que no acabará.
Fue conforme el arder, ser un humo fragante,
una lumbre tan sólo
con las hojas resecas de la salvia quemada.
Fue de plata y tiniebla la funeral aurora,
fue encontrar un camino
en el fondo más cruel del pozo ciego,
fue fundar residencia
en el mismo reverso de la incrédula carne,
contemplar la semilla del terror
germinada en corola de una flor sin raíces.
Fue morir y vivirlo,
fue partir y quedarse,
fue brillar un segundo
de la muerte en el negro filamento,
apagado de luz misericorde. 
© Vicente Gallego

sábado, setembro 27, 2014

Arder

(Claire street art)


Consome-me este fogo que me queima as entranhas. O desejo de ter as tuas mãos na minha carne fremente... arder, arder, para logo me afogar na saliva dos beijos, no fluxo do orgasmo.

 

sexta-feira, setembro 26, 2014

Frágil


 (Lauren Semivan)

De vez em quando regresso a ela, à Clara. Nunca se tivera em grande conta. A educação rígida fizera-a temerosa dos outros e de si própria. Combatera ferozmente esse temor com a avidez da leitura, a música, as visitas a museus, as viagens. Brilhou a liderar grupos, a contar histórias, a desdobrar-se em mulheres que não era. 
Continua a não se ter em grande conta, a Clara. Ninguém adivinha como queria, apenas, que lhe segurassem as mãos, sem dizer nada, deixando-a ser aquilo que é, frágil. 


quinta-feira, setembro 25, 2014

Menina

(Auguste Renoir)

Ana Rita olha-me com altivez, do alto do seu metro e trinta. Uns olhos verdes intensos e um cabelo ruivo, faiscante, a realçar o rostinho branco e sardento que coroa o seu corpo frágil de menina de oito anos. 
- Cheguei agora da minha aula de violino, sabes? diz-me.
Eu sei. Sei, também, que faz ballet, aprende Alemão, faz equitação e ainda tem aulas de pintura. Vive mesmo ali ao lado, a Ana Rita, e vejo-a a sair logo pela manhãzinha e a regressar bem para lá das oito da noite, umas vezes de tutu, outras de botas de montar, outras, ainda, com a caixa do violino. É a D.ª Agostinha que a vai buscar ao colégio privado onde estuda e a traz para casa, ajudando-a com o peso extra da mochila. A mãe não consegue chegar do gabinete de arquitectura antes das nove e o pai anda num corre corre em viagens constantes. É muito empertigada, a Ana Rita. Hoje está assim, confiante, afinal as aulas começaram e não tem tempo para respirar de tantas actividades extra a tomarem-lhe o espírito e o corpo. Há pouco tempo, porém, corriam as férias de Verão, colégio encerrado, vinha até à sebe que separa a sua casa da minha e perguntava-me, com ar perdido:
- O que achas que posso fazer? Não sei o que fazer! 
- Brinca! Tens um jardim tão bonito, um cão, brinquedos! respondia-lhe.
Não passava muito tempo sem que me arrancasse à leitura.
- Não sei brincar assim. Aborreço-me. Não sei estar sozinha sem fazer nada.
E a menina desafiadora ficava frágil e perdida.
De repente, lembrei-me de quando a escola acabava às 4 da tarde e as brincadeiras iam até à hora de jantar, sem cavalo, violino, professora particular ou ballet. De quando um ramo de árvore era esse cavalo, e se dançava ao som de cantorias estridentes, entre risinhos patetas de alegria e nunca nos aborrecíamos.