Quando eu morrer, não chorem. Pelo menos, não perto de mim. Estarei lá, acima do meu corpo, vendo(-me)-nos e quererei os risos, os beijos, os abraços. Quererei as palavras de sempre, as críticas e os elogios de sempre. Não me tragam flores. Essas, dêem-mas em vida que eu adoro flores! Reduzam-me a cinzas. Arderei em morte como ardo em vida, em alterosas chamas. Depois, soltem-me ao vento norte, numa praia de águas frias, gaivotas ruidosas e dunas povoadas por recordações de namorados.
Quando eu morrer, morrerei amando. Por isso, não esqueçam o meu amor.
Há muito tempo que Joana estava posta
em sossego. O coração batia sempre ritmado, a um compasso saudável
e controlado. As rotinas diárias eram cumpridas sem entusiasmo, mas
com a dedicação suficiente para que ninguém pudesse acusá-la de
negligência ou preguiça. Mesmo a casa era mantida escrupulosamente
arrumada e limpa.
De entre as rotinas, a ida à
biblioteca do pequeno jardim, logo ao virar da esquina do seu local
de trabalho, era a favorita. Mesmo em pleno Inverno, o abrigo de
vidro grosso permitia-lhe uma leitura tranquila.
Até que uma dia... Um dia, entra pelo
abrigo dentro António José. Homem de grande estatura, cabelo
comprido, grisalho, apanhado num rabo de cavalo, a encimar o rosto
tisnado, marcado por algumas rugas, vestia de couro da cabeça aos
pés. Só depois Joana o ligaria com a moto pesada estacionada no
passeio em frente quase todos os dias. E não é que o homem tropeça,
caindo aparatosamente aos seus pés, interrompendo-lhe a leitura da poesia de Maria Teresa Horta?
“Morrer de amor ao pé da tua boca
(...)”
Estas palavras ainda nos olhos e
António José a levantar-se, na sua frente, tão perto que os seus
rostos quase se tocavam.
Não se sabe o que disseram, nem como
ambos, de tão diferentes, se demoraram em palavras, sorrisos, e num
apertar de mãos a eternizar-se na despedida. Sabe-se, sim, que Joana
se atrasou naquele dia, contrariando a rotina, mas que as tarefas
foram realizadas com tal entusiasmo que estavam prontas muito antes
da hora de saída.
Havia uma menina na varanda, toda ela graça e alegria. Era
uma varanda antiga, numa casa grande, pintada de branco, escancarada
de grandes janelas envidraçadas. Quando o sol vinha e a cobria de beijos, não
havia vidro que não brilhasse, à semelhança dos olhos da menina.
Nem no rigor do Inverno deixavam de se ouvir as gargalhadas
límpidas, percebendo-se, na amurada, o gorro vermelho de lã encimado por um
pompom multicolor.
As árvores, embora a ritmo mais moderado, iam crescendo com
ela (Clarinha, ouvira chamar-lhe) e pareciam inclinar-se para servir-lhe de protecção.
Permitiam-lhe, ainda, ensaiar cantos, em coro com o chilreio do pássaro que,
todos os anos, construía o ninho nesses ramos.
Frondosas, as árvores, fechadas, as vidraças, calado o
pássaro, ausente, Clarinha.
Foram tempos estranhos aos passantes, habituados
que estavam a abrandarem o passo, à escuta.
Até que correu notícia do regresso. O pássaro desatou
num canto tão melodioso e ininterrupto, que era impossível não parar a ouvi-lo.
Ao fundo, uma voz alegre de rapariga, toda ela graça e alegria.
A luz da manhã, crua e enfarruscada, deixava a olho nu a sordidez do lugar que, durante a noite, lhe parecera belo e cálido. A cadeira onde se sentara, com ela ao colo, entre beijos e goles de vinho tinto, devia ter sido abandonada nalguma mudança de casa, contando com três protectores nas suas quatro pernas e revelando ferrugem corroendo as travessas das costas. Do candeeiro, agora apagado, restava a sombra esquálida, contrastando com a luz amarela ainda agora projectada nos amantes enlaçados. Deixou a garrafa vazia escorregar para o cimento marcado pelos milhares de percursos por ali calcorreados. Afinal, ela partira antes do último gole, antes da última carícia.
Levantou-se vagarosamente, a tristeza agarrada à pele como se tivesse sido tomado por um imenso cansaço, um desalento antigo de tanto doer. A ponte estava ali. Debruçou-se nela. O rio corria, impetuoso, formando ondas, galgando pedras.
À medida que a saudade ficava mais funda, ia construindo uma ponte mar adentro, na esperança de que houvesse outra praia, onde outra ponte estivesse a ser construída. Não tardaria e seriam uma só.
Naquele tempo, andavam os Deuses em plena época criativa, pondo e dispondo da acção e da palavra para que o Livro dos Livros lhes servisse de memória, quando Hermione e Hispério se cruzaram. Iam ambos a caminho do mercado de escravos, ela, prisioneira de guerra, ele, nado e criado na casa de senhores caídos em desgraça do Rei e, por isso, enviado para venda. Cabeças baixas, nem se teriam olhado, não fosse o pantomineiro Cupido ter desatado a treinar a pontaria e crivá-los de setas.
Foram tantas e tão certeiras que ficou escrito ser destino de ambos apaixonarem-se a cada reencarnação, mau grado esta primeira vez não passasse de olhares lânguidos e suspiros, logo cortados pela maior licitação que não calhou ser do mesmo comprador.
Mas Deuses são Deuses e o Livro dos Livros assim o ditava: A cada vida, Hermione e Hispério, não importava onde nascessem, ou como se chamassem, apaixonar-se-iam, levando menos ou mais longe o seu amor.
Sabe-se que, ainda há pouco, um homem e uma mulher se cruzaram e souberam que estavam predestinados a amarem-se.
Havia
anos, Maria Clara tinha entregue o seu coração a Pedro. Era um
coração quase perfeito, não fora a súbita arritmia que o acometia
sempre que na presença dele.
Levara-lho
assim, vermelho vivo e arrítmico, num dia de frio invernoso,
encostando o peito ao dele até que os batimentos se acertassem
naquele peito que não era o seu. Não tardou em descobrir a falta
que lhe fazia, em estando Pedro ausente. Parecia que uma dor muito
funda se aninhava bem ali, no lugar vazio.
Quando,
tempo volvido, lhe bateu um mensageiro à porta com uma encomenda
cuidadosamente embrulhada numa caixa forrada a cetim preto, Maria
Clara percebeu que, rutilando no fundo negro, um coração lívido,
com uma ferida profunda de onde escorria sangue, era o seu.
Dissera-lhe o portador que o homem de quem tomara a caixa lhe pedira
que a informasse que não suportava mais o bater de dois corações
que não tinham o mesmo ritmo.
Levou-o
para o quarto, sentando-se com ele no regaço, hesitando em
retomá-lo, quase como se temesse rejeitá-lo, de tanto que se lhe
estranhara. O implante revelou-se penoso, mas não tardou que um
súbito aconchego lhe consolasse corpo e alma. Afinal, um coração
só pode partilhar-se com alguém que saiba como dois ritmos em
descompasso são predispostos às mais assombrosas melodias.
Felizes aqueles que fazem dos seus dias luz Encanto de quantos se entregam à dor Luzeiro dos tristes e dos alegres Intensidade Cor Inspiração Deleite Anelo Dádiva Epifania
E de repente, já não era Natal.
Talvez não o tenha sido, nem a 25. Lá fora, a tangerineira
substituíra o pinheiro manso que encantara gerações e o presépio
jazia, deserto de mãos que o dispusessem, numa caixa de cartão.
Já viste o presépio, filha? E as
luzinhas? Estou ansiosa por que venham os meninos para ver como
reagem!
Alegrava-se na expectativa dos olhos
imensos dos mais novos, embora franzisse um pouco o sobrolho quando o
Menino Jesus ia parar ao lago, em banho prolongado, e as ovelhas
ganhavam asas, pousando nos telhados das pequenas casas.
Bivó, foste tu que apanhaste o musgo?
Bivó, quando vem o Menino a sério pôr
as prendas?
Bivó, desculpa! Não “resiti” e
comi um Pai Natal da árvore!
Olharam-se de relance e prosseguiram o seu caminho em passo menos célere. Estacaram, ambas.
Quando retrocederam, os olhos brilhavam no reconhecimento das adolescentes de outrora.
Clara?
Maria?
Um abraço imenso com mais de quarenta anos de premeio quase as deixava sem fôlego.
Depois. Depois, foi uma catadupa de palavras, com risos e lágrimas à mistura, que não era para menos, caramba. Tantos anos! Tanta vida!
Em comum, tinham o frio da camarata, os joelhos azulados dos bancos corridos da capela, os livros de banda desenhada e as fotonovelas dissimuladas pelos livros escolares na sala de estudo, os ralhetes das freiras pelas conversas nas aulas de religião e moral (valeram-lhes um Suf.- a destoar do Muito Bom de todas as outras) e o castigo quando as apanharam em flagrante a espreitarem pela janela, em poses de crescidas, para os rapazes do externato. Ah! Mas também houvera os fins de semana na casa uma da outra, metidas na mesma cama, na treta, até de madrugada; os segredos partilhados das paixões assolapadas, embora platónicas; os cigarros roubados em casa e fumados no meio dos arbustos, a que se seguia uma boa esfregadela de dentes com casca de laranja, não fosse o cheiro denunciá-las; as roupas trocadas; os batôns e os lápis dos olhos comprados em comum e, acima de tudo, o calor de uma amizade imensa, cortada abruptamente pela morte do pai de Clara, que a levara a abandonar o colégio e a partir para a Austrália com a mãe.
As mãos de ambos repousavam em cima da mesa de vidro do salão de chá. Tocavam-se, ao de leve. Havia nelas, porém, uma impressão de inquietude que denotava traços de muitos voos conjuntos.
Admiravam-se de vê-la sempre com um brilho no olhar, mau grado todas as adversidades. Mal sabiam que, por dentro, tudo o que existia era uma constante metamorfose.
Afasta-se do bando crendo que a dor será menos dor na gaiola dos (a)braços. Não queria nada devagar. Nem voos, nem céu, nem mar. Mergulhou em voo picado, ainda que sabendo da malha apertada da rede. Era doce. Ficou.
Para a Maria Eu Porque los pájaros nacidos en jaula creen que volar es una enfermedad, de más en más hay pájaros rogando porque los metan en una jaula.
O palco era um velho amigo. Entre ela e ele não havia segredos. Crescera a praticar o equilíbrio corporal, a projecção da voz, a encarnação das personagens. Horas a fio, fora de tudo um pouco: mulher e amante; pobre e rica; doce e amarga; dócil e rebelde...
Cansada, era cansaço o que sentia, desse jogo de sol e sombras, de nunca ser ela, sendo sempre outras.
Tinha feito a actuação final. Não
haveria mais diálogos, monólogos, público, palmas... Descalçou os
sapatos vermelhos ainda sob a luz intensa do holofote. Pés nus,
coração descompassado, subiu as escadas como uma sonâmbula. De lá
de cima conseguia ver a mancha vermelha iluminada. Fechou os olhos e
voou.
(Zbigniew Preisner, Lisa Gerrard, Dominik Wania - Melodies of my youth)