segunda-feira, junho 29, 2015

Férias



Há férias que não podem esperar. Bons posts! 

Destino


"Ninguém acreditava muito no bruxo, mas receavam que ele lhes dissesse algo de desagradável e que isso depois viesse a acontecer.
(...)
- O homem actualizado - afirmou Pergorano, bebendo mais um copo - faz uma consulta ao bruxo e leva a sua vida sem ansiedade, de acordo com o programa mais claro que vidro de celulóide. O que se passa convosco - continuou -, é que estão assustados.
(...)
Subiram até ao quarto andar. (...) A rapariga disse-lhes para esperarem. A seguir, entraram no consultório do bruxo, um por um. 
(...)
O último a entrar, foi Gauna. Serafin Taboada estendeu-lhe uma mão muito limpa e muito seca. (...)
- Em que posso servi-lo?
Gauna pensou um instante. Depois respondeu:
- Em nada. Vim só acompanhar os rapazes.
(...)
- Lamento, porque tinha uma coisa para lhe dizer. Fica para outra vez.
- Quem sabe.
- Não desespere, o futuro é um mundo em que há de tudo.
- Como na loja da esquina? - comentou Gauna - É o que reza a propaganda, mas, creia-me, quando você pede alguma coisa, respondem-lhe que já não há.
(...) Taboada continuou:
- No futuro corre, como um rio, o nosso destino, tal como o desenhamos aqui em baixo. No futuro está tudo, porque tudo é possível. Nele, você morreu na semana passada e nele vive para sempre. (...) Se no futuro não encontramos o que procuramos, será porque não sabemos procurar. Podemos sempre esperar alguma coisa."

Adolfo Bioy Casares, in O sonho dos heróis




Desenhamos o destino a cada momento do presente. Quando escrever a próxima letra, estou no meu futuro. Indago-me, porém, se saberei o quê e onde procurar. 
- Acreditas no destino? 
- Não, acredito no acaso... 
- E não é o destino um conjunto de acasos?

domingo, junho 28, 2015

Partir

(imagem daqui)


Chegou a casa com as malas de anos de ausência e um diploma na mão. Imaginava a alegria do pai e o sorriso da mãe, sabendo-a à beira de outra vida. Passara anos longe deles. Primeiro, criança em prantos pela noite, na cama de ferro forjado de um dormitório de meninas pequenas. Depois, adolescente, em desabafos de páginas e páginas, nos diários que misturavam palavras com flores e folhas secas, onde os amores da vizinha e de Rodrigo (ou seria Rogério?) se confundiam com o sonho de ser arrebatada da sala de estudo do colégio por um rapaz garboso, ao volante de um dois cavalos vermelho.
Mulher, agora, quatro anos na cidade, partilhando um quarto minúsculo com sucessivas companheiras de estudo, desistentes dos limitados metros quadrados e do toque altissonante do despertador alheio às sete da manhã, sem falhar.
Eram as suas últimas férias grandes. No final do Verão, Maria Helena faria as malas, de novo, e partiria, rumo à idade adulta.


sábado, junho 27, 2015

Das férias de Verão

(Yuri Kugach, aqui)

Regressava à aldeia nas férias escolares. Os dias que a aprisionavam no edifício em U, amarelo, com portões verdes aferrolhados a sete chaves e janelas de fechos duplos, ficavam para trás. Lá, Maria Helena fechava também as sempre sombrias mulheres de hábito negro, olhar gelado e mãos secas, que marcavam as horas a rezas e ordens ríspidas. Juntamente com elas, a menina Joselina, um misto de criança e velha, olhos pequeninos e vivos, gargalhada fácil, mas perversa na vigilância de cada desvio da linha para o dormitório, de cada palavra segredada ao ouvido. 
Agora, respirava de novo a liberdade das tardes a alongarem-se noite adentro, sentada no banco sobranceiro ao pomar, livro aberto nos joelhos, o embalo dos grilos e dos ralos, de quando em vez entrecortado pelo latir do Delfim em perseguições ao Patusco, o gato preto. A vizinha, outrora adolescente, já não punha o gira-discos a tocar ali ao lado. Casara com o Rodrigo (ou seria Rogério?) e fora para Lisboa. Diziam que eram muito felizes, aqueles dois, sempre unidos num abraço, sempre em sorrisos cúmplices e beijos furtivos. Suspeitava que, agora, ouviam música romântica e dançavam, enlaçados, para além do girar do LP*.




* Discos de vinil “Long Play” 33 rpm (rotações por minuto).

sexta-feira, junho 26, 2015

Maria Helena

(imagem daqui)

Maria Helena sempre primara por duas características: o aprumo e a alegria. Desde pequena que pedia à mãe para lhe endireitar os laços das tranças e a ajudar a limpar cuidadosamente os sapatos, quando havia saídas à vila. Tinha, até, o costume de ir à socapa pôr um pouco do perfume que o pai oferecera à mãe pelos anos, atrás das orelhas e nos pulsos, à maneira das actrizes dos filmes das matinés. Ah, as saídas! Os sorrisos cúmplices dos pais na previsão de um novo televisor, grande, ali a tentá-los, na montra do Sr. Inácio. O gelado da Olá com o brinde sempre esperado... Esse aprumo, porém, não a impedia de, chegada a casa, vestir os calções e a blusa larga para correr nos campos, a espreitar os ninhos de pássaros. Outras vezes, esquecia a compostura e trepava às árvores, destemida, empoleirando-se nos ramos mais altos, a gritar a plenos pulmões uma qualquer canção que ouvira no gira-discos da vizinha, uma adolescente apreciadora de música francesa e italiana, daquela de fazer suspirar qualquer um, até o Rodrigo da casa grande, rapaz espigado e fino que passava férias na aldeia, vindo de Lisboa.


quinta-feira, junho 25, 2015

Cais

(imagem daqui)

Há um veleiro atracado no cais que aguarda o desfraldar das velas a cada dia. Raras são as vezes em que zarpa, em manobras trabalhadas pelo vento e pelas marés, nas mãos hábeis do dono, habitante da cidade grande. Entrementes, vai dando poiso a uma gaivota que lhe traz novas de uma janela em que a luz tarda a apagar-se pela noite e amanhece cedo, acesa.


quarta-feira, junho 24, 2015

Da Criação


(Detalhe de O Jardim das Delícias de Hieronymus Bosch)


Mito da criação

No princípio existia uma enorme gota de leite.
Então chegou Doondari e criou a pedra.
A pedra criou o ferro;
E o ferro criou o fogo;
E o fogo criou a água;
E a água criou o ar.
Então Doondari desceu pela segunda vez.
Juntou os cinco elementos
E moldou-os num homem,
Mas o homem era orgulhoso.
Então Doondari criou a cegueira e a cegueira derrotou o homem.
Mas quando a cegueira se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari criou o sono, e o sono derrotou a cegueira;
Mas quando o sono se tornou demasiado orgulhoso,
Doondari criou a preocupação, e a preocupação derrotou o sono;
Mas quando a preocupação se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari criou a morte, e a morte derrotou a preocupação.
Quando a morte se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari desceu pela terceira vez.
E ele veio como Gueno, o Eterno,
E Gueno derrotou a morte.


Poema atribuído aos Fulani (Mali(?)) publicado na ROSA DO MUNDO, antologia de poesia publicada por ocasião do Porto Capital Europeia da Cultura, em 2001.
Tradução de Vasco David


Sucessivamente, o orgulho levou à derrota o homem, a cegueira, o sono, a preocupação... Nem mesmo a morte lhe resistiu.

terça-feira, junho 23, 2015

Futuro

(Rob Gonsalves)

São 15 nomes. Perfilam-se Carlas, Carlos, Carolinas. Na sala, o quadro imaculadamente branco já ostenta, a negro, nome, código, duração e tempo de tolerância da prova.
É cedo. Professores vigilantes à porta e algumas, poucas, das caras cujos nomes constam da lista.
Ouve-se:
- Tchiiiii! De roupa nova para um exame!?
- Então, porque não? É mais importante do que uma saída. É o meu futuro!
- Futuro? Que futuro? Caixa do Pingo Doce?


Dos 15, vieram 12. Os outros 3 adiaram, no presente, o (não)futuro.



segunda-feira, junho 22, 2015

Doce

(Joseph Lorusso)

"He liked Bea to call him Dickie because she called Iris Iris; he liked the warmth of it, he said."

William Trevor, in the short story Good News





Era a ternura que soava a voz dela quando pronunciava o seu nome. Parecia que se lhe adoçavam os lábios, como se tivesse acabado de comer arroz-doce com canela.

domingo, junho 21, 2015

O amor à arte




A Vitória de Samotrácia, a maravilhosa escultura grega, de vestes drapeadas que encima a Escadaria Darú, no Louvre, empreendeu uma viagem pouco usual, embalada num caixote de madeira, a escassos dias da perda de Paris para os alemães, durante a II Guerra.




Também Mona Lisa é enviada numa dessas viagens, sorriso encoberto pelas ripas de madeira, à espera de regressar ao seu lugar de destaque,  a uma distância prudente dos milhares de olhares que, tantas vezes, se desapontam com a sua (aparente) pequenez.


23 de Junho de 1940, os alemães entram, vitoriosos, em Paris, mas o Louvre está vazio de qualquer obra de maior importância, bem como muitos outros museus dos quais Jacques Jaujard (mais tarde membro da Resistência francesa) é director geral. Requisitando castelos por toda a França, para onde enviou centenas de obras de arte, num plano gizado muito antes do início da II Guerra, deixando, no seu lugar, algumas cópias de gesso, no caso das esculturas e/ou arte de pouco relevo. Com elas, iam os seus guardiões, funcionários dos museus, acompanhados das famílias. Jeu de Paume não tem igual sorte e a colecção de arte moderna, assim como algumas colecções pertencentes a judeus, são tomadas por Goering, iniciando uma rapina, por parte dos alemães, a públicos e privados da qual, ainda hoje, vêm à luz uma ou outra obra descobertas por acaso.

Jaujard, que teve o rasgo de salvar um espólio património da Humanidade, num jogo de cintura que foi capaz de enganar alemães e, ainda, o famoso governo de Vichy, teve o amargo de boca de ser acusado de colaborador aquando do final da ocupação. Valeu-lhe a defesa de quem, nos lugares cimeiros, conhecia a sua vida dupla, sempre com o fito de proteger a arte da voracidade do inimigo.
O Louvre não seria o Louvre sem Jaujard.

* Este post foi escrito após o visionamento de um excelente documentário na RTP2, na noite do dia 20 de Junho.

sábado, junho 20, 2015

Silêncio


(Vilhelm Hammershøi, o pintor do silêncio)


"Il n'y a de terrible en nous et sur la terre et dans le ciel peut-être que ce qui n'a pas encore été dit. On ne sera tranquille que lorsque tout aura été dit, une bonne fois pour toutes, alors enfin on fera silence et on aura plus peur de se taire. Ça y sera." 

Celine, in "Voyage au bout de la nuit"




Dizer tudo o houver para ser dito e depois, finalmente, sermos capazes de desfrutar do silêncio.

sexta-feira, junho 19, 2015

Volúvel

Eu sei que o cravo do poema é de outra espécie mas este esteve ao meu peito.


Unha vez tiven un cravo

Unha vez tiven un cravo
cravado no corazón,
i eu non me acordo xa se era aquel cravo
de ouro, de ferro ou de amor.
Soio sei que me fixo un mal tan fondo,
que tanto me atormentóu,
que eu día e noite sin cesar choraba
cal choróu Madalena na Pasión.
“Señor, que todo o podedes
-pedínlle unha vez a Dios-,
dáime valor para arrincar dun golpe
cravo de tal condición”.
E doumo Dios, arrinquéino.
Mais…¿quén pensara…? Despois
xa non sentín máis tormentos
nin soupen qué era delor;
soupen só que non sei qué me faltaba
en donde o cravo faltóu,
e seica..., seica tiven soidades
daquela pena…¡Bon Dios!
Este barro mortal que envolve o esprito
¡quén o entenderá, Señor!…


Rosalía de Castro



Ah, aquela dor tão funda que de lágrimas nos enche os olhos e de penas o coração! Quando a temos não a queremos, quando a perdemos falta-nos! Volúveis que somos, nós, mortais...

quinta-feira, junho 18, 2015

Azul

(Eric Zener)

Mergulha, sem um piscar de olhos, sem um mover de músculos. Assim, como se nada mais existisse para além do fundo do rio que sempre quisera ver. Tinham-lhe dito que lá, no mais profundo do leito, as pedras eram mais azuis. Sempre gostara de azul.


quarta-feira, junho 17, 2015

Poema a uma papoila e um seu botão


Luminosa e vermelha é a flor do meu amor.


Nela se enreda e se desvela fresco botão.


É o amor, brotando forte, também em flor;


Pronto a abrir num beijo ardente de paixão.




Luminosos e vermelhos são o botão e a flor, feitos paixão.  


terça-feira, junho 16, 2015

Da importância da vírgula

(daqui)


Era uma vez um país muito pequenino, onde viviam 10 números: o zero, o um, o dois, o três, o quatro, o cinco, o seis, o sete, o oito e o nove. Eram todos muito felizes até o zero ouvir dizer entre dentes, ao dois, "este é um zero à esquerda". Não sossegou enquanto não se juntou ao um. À direita, claro. Dez era um número maior do que todos os outros e ambos ficaram felizes com o acordo. Um dia, enquanto dormiam, uma vírgula do país vizinho, o da pontuação, veio de mansinho e meteu-se entre os dois. Ficou apoplético, o zero, quando acordou e viu a invasora. Então agora valia zero de novo? E, ainda por cima, o um ficava na mesma? Mal a noite desceu, mudou-se para a esquerda da vírgula. Zero vírgula um!
Nem se deu conta de que voltara a ser um zero à esquerda.


segunda-feira, junho 15, 2015

Agenda

(Vladimir Kush)


Hesito sempre, como se fosse cometer um crime de assassinato, quando risco da agenda um compromisso que, afinal, nunca acontecerá.


De como deve ser o AMOR


 (Frederic Leighton)

Às vezes, tropeçamos em textos que nunca, mas nunca, deviam deixar de ser lidos por, sei lá, milhares de milhões de pessoas. Às vezes, lemos um texto que nos fala do AMOR total, incondicional, aquele que vai para além da memória recente.
Do Blog com o estranho nome de Linda Porca que tem como dona alguém que é realmente linda:

"O amor mais pequenino 


A pessoa que me apresentou os clássicos, é a mesma que hoje me fala de trivialidades não menos importantes. Por quem passaram Eça, Camilo, John Galsworthy, Isabel Allende, Agustina, Somerset Maugham, Saramago, Laura Esquível, Anaïs Nin, Namora, e mais mil, que a minha gasta memória limpou, ou não acha agora, fala-me de minudências da feminilidade, como de assuntos fulcrais para o avanço da espécie. Eu colaboro, porque o amor é uma matéria elástica, sem limites. Além disso, deixei de ter cabeça para conversas mais elevadas, naquele local, com tanta gente deixada, ali ao sol, à nossa volta. Estamos tão sós, de tão acompanhadas.

Foram alguns anos em que nos perdemos, até ficarmos órfãs uma da outra. Sem o meu pai, vi-a perdida, e perdi-a uma vez — mas não de vez. Reencontrei-a outra, mas não tinha mais nenhuma, e a orfandade é uma mágoa que não se ampara em idade nenhuma, por isso a recolhi num abraço de volta sem retorno.

Levo-lhe verniz castanho, por saber que não me permite o vermelho das minhas, o mesmo vermelho que via nas dela e me fazia desejar crescer muito depressa, só para ter umas unhas iguais. Cresci, acho eu, e comecei a pintá-las de vermelho no momento em que deixei de ver as dela com cor.
Pergunta-me que dia é hoje, mas  não quero dizer-lhe o dia do mês, para que não saiba que estamos em Junho, Junho do pai. O meu pai chegou em Junho, a meio do mês, e deixei de o ver em Junho, uns dias depois de ter feito anos.
- Esta cor chama-se café.
E pinto-lhe as unhas de castanho.
Diz-me que tenho as mãos bonitas, tão pequeninas, e ri-se, quando lhe mostro a mão aberta. Depois diz-me que eu tenho os pés tão pequeninos, e, por serem, não contesto, mas passa-me a insegurança de não saber se me vê pequenina, e o desconsolo de não poder devolver-lhe o reflexo, e vê-la ainda jovem. Isso torna-me pequenina. 
Fala-me do meu cabelo, diz-me que devia tratar dele, que está muito comprido, e que tenho as pernas escuras. Volta a rir-se toda, compara as dela com as minhas, lado-a-lado.
- Nem pareço sua filha.
Então, rimo-nos as duas, diante da possibilidade impossível que, ainda que possível, seria já tão irreversível.
- Sais ao teu pai.
Olho-a até lá dentro, à profundidade que já não está lá, e procuro o meu pai na lembrança dela. Corro tudo, e acho que o encontro, Era tão escuro, o meu pai. É a ele que eu saio assim, não é?
- É a ele, não vês a minha cor? Eu sou branca...

A saída é sempre um parto que me dói nascer. Tenho a impressão de um puxão na cabeça, quando a deixo, sentada e pequenina, a dizer-me adeus com a mão aberta.
Ouço-a dizer à senhora que está sentada ao lado:
- É o meu amor mais pequenino.
E nunca, como agora, percebo o alcance dessas palavras."

domingo, junho 14, 2015

Forte

(Tran Nguyen)


Maria Laura nunca se sentira tão sozinha. O silêncio adensara-se de tal forma que ouvia a sua respiração enquanto as teclas do Asus ensaiavam um texto ao correr dos seus dedos. Durante a tarde, num telefonema inesperado de alguém que não via há mais de dois anos, tinham-lhe dito que o seu maior problema era ser intensa em demasia, dar-se como se nada mais importasse em cada compromisso assumido, estender o ombro como fortaleza aos que a rodeiam sem nunca se lamentar das dores que a afligem. Age sempre como a mais forte e, quando cai, ninguém a leva a sério.

Eu sou forte! repete em voz alta. E continua a escrever, engolindo as lágrimas.


sábado, junho 13, 2015

A VOZ (Capítulo III)


A VOZ (Capítulo I) - Teia de Folhas de Papel
A VOZ (Capítulo II) - A elasticidade do tempo
A VOZ (Capítulo III) - A vez da Maria
A VOZ (Capítulo IV) - Talqualmente Outro


Ele
Clara e melodiosa, assim a recordava. Nem se tinha apercebido o quanto o emocionara a melodia daquela torrente de palavras que lhe ia chegando, em resposta ao telefonema que  instintivamente fizera, enquanto conduzia a velocidade moderada, sob chuva grossa, na A3. Sabia de cor cada hesitação, cada sorriso, cada embargamento quase desmanchado em lágrimas. Tinham ecoado no habitáculo do automóvel, à mistura com o som das bátegas no pára-brisas e a música que tocava baixinho no leitor de Cds. 
Havia um desejo intenso de ousar ligar-lhe de novo. Os dedos ensaiavam a marcação do número...

Ela
Intensa e quente, assim a recordava. Sabia quanto se perturbara, como não parara de falar sem dizer nunca o que sempre tivera vontade de dizer. Ouvira cada palavra como se tivesse nascido para ouvi-las, apenas. Só uma música de fundo se adivinhava, como que composta expressamente para aquele momento.
Nas mãos, o telemóvel, onde sabia ter registado o número. O coração disparado, na ânsia de ouvir de novo aquela Voz "que lhe faz estremecer o corpo inteiro",  os dedos ensaiando o toque no ecrã...


Ambos marcaram o número em simultâneo. Ficaram em linha, ouvindo o sinal de ocupado do outro lado até a chamada se desligar automaticamente.




*Continuação no blog Talqualmente Outro, pelo Outro Ente.



quinta-feira, junho 11, 2015

Amo-te, simplesmente


(Marc Chagall)



Eu Simplesmente Amo-te

Eu amo-te sem saber como, ou quando, ou a partir de onde. Eu simplesmente amo-te, sem problemas ou orgulho: eu amo-te desta maneira porque não conheço qualquer outra forma de amar sem ser esta, onde não existe eu ou tu, tão intimamente que a tua mão sobre o meu peito é a minha mão, tão intimamente que quando adormeço os teus olhos fecham-se. 

Pablo Neruda, in "Cem Sonetos de Amor"



Não sabia amar de outra maneira e, assim, era inteira que se dava. Olhava cada coisa como se fosse com os olhos dele e, quando o vento soprava mais forte, despenteando-lhe os cabelos, eram os dedos dele que lhe afastavam a franja que, rebelde, teimava em tapar-lhe os olhos.

Das partidas que serão chegadas

(Gérard Schlosser)

Balada de Sempre

Espero a tua vinda                                                 
a tua vinda, 
em dia de lua cheia. 

Debruço-me sobre a noite 
a ver a lua a crescer, a crescer... 

Espero o momento da chegada 
com os cansaços e os ardores de todas as chegadas... 

Rasgarás nuvens de ruas densas, 
Alagarás vielas de bêbados transformadores. 
Saltarás ribeiros, mares, relevos... 
- A tua alma não morre 
aos medos e às sombras!- 

Mas..., 
Enquanto deixo a janela aberta 
para entrares, 
o mar, 
aí além, 
sempre duvidoso, 
desenha interrogações na areia molhada... 


Fernando Namora, in 'Relevos' 



As partidas nunca são tão dolorosas quando antecipam as chegadas. Há o sorriso que se desenha por detrás das lágrimas na esperança do regresso. Abrem-se janelas com vista para o rio, o mar, a estrada, de onde virá quem se aguarda, para subir as trepadeiras floridas, ao encontro de uns (a)braços ternos.

quarta-feira, junho 10, 2015

Sorrisos

(IRENE HARDWICKE OLIVIERI)


Na ingénua crença de que mandar-lhe fotografias o fazia mais próximo de si, enchia de sorrisos capturados a máquina fotográfica.


terça-feira, junho 09, 2015

O (não)sonho Americano


(Jack T. Franklin Collection at AAMP)



Quando as notícias dão conta de mais um abuso policial na terra dos sonhos...

America

Although she feeds me bread of bitterness, 

And sinks into my throat her tiger’s tooth, 
Stealing my breath of life, 
I will confess I love this cultured hell that tests my youth! 
Her vigor flows like tides into my blood, 
Giving me strength erect against her hate. 
Her bigness sweeps my being like a flood. 
Yet as a rebel fronts a king in state, 
I stand within her walls with not a shred 
Of terror, malice, not a word of jeer. 
Darkly I gaze into the days ahead, 
And see her might and granite wonders there, 
Beneath the touch of Time’s unerring hand, 
Like priceless treasures sinking in the sand.

*Claude McKay, 1889 - 1948




America

Ainda que ela me alimente de pão fermentado a amargura
E me crave na garganta os seus dentes de tigre
Roubando-me o sopro da vida
Confesso que amo este inferno cultural que testa a minha juventude!
O seu vigor corre nas minhas veias como marés,
Dando-me força para me erguer contra o seu ódio.
A sua grandeza devasta-me como uma intempérie.
Porém, como um rebelde enfrenta um estado soberano
Mantenho-me dentro dos seus muros sem um pingo
De terror, de maldade, ou sequer uma palavra de escárnio.
Contemplo sombriamente os dias futuros
E vejo o seu poder e as suas maravilhas de granito,
Sob o toque da mão infalível do Tempo
Como tesouros inestimáveis afundando-se na areia.

Claude McKay, tradução livre de Maria Eu



 *Claude McKay, escritor jamaicano, mudou-se para Harlem em 1914. Foi um dos nomes mais importantes do movimento negro do renascimento de Harlem nos anos 20 e 30. A sua obra é uma voz contra o racismo.

segunda-feira, junho 08, 2015

Jardim de Eros

(Robert Mapplethorpe)



Erguia-se, orgulhosamente erecta. Flor pujante e viril. Corpo aveludado ao toque, de veios traçados num emaranhado desenhado como que a sangue.Voluptuosa, exalando um perfume intenso que despertava o desejo. 
Ela aproximou-se, como se fosse dona do jardim, e tomou-a nas mãos fazendo-a sua.


domingo, junho 07, 2015

Enleio

(Louis Jean François Lagrenée)

Quando os olhares de ambos se encontravam, nunca se percebia onde terminava o dela e começava o dele.


Gorjeadores


(Luís Desenha, melro)


Mudei de ideias. Os meus pássaros não são apenas loucos. São doidos varridos! Agora deu-lhes para gorjeios ao desafio noite adentro.

sexta-feira, junho 05, 2015

Da voz interior

(imagem daqui)



"Foi o desejo de solidão que o levou ao mar. A solidão, porém, era apenas um sintoma, talvez um sinal daquilo que chamava por ele. Sentado no pequeno veleiro, olhava o oceano e deixava que o silêncio que habita o bramir das águas chegasse até ele. Tarde ou cedo, meditava, ouviria a voz que o chamou e saberia o que ela queria dele. E assim, durante todos os dias que viveu, levantou-se, embarcou e navegou de manhã à noite, sempre com a esperança de ouvir aquilo que dele a voz queria ao trazê-lo à vida. No momento da morte percebeu, porém, que a voz falara sempre dentro dele e que o seu caminho era apenas ir e vir nas águas infinitas do oceano."

Viandante Viator, no excelente blog Homo Viator



Nem sempre a resposta é o mais importante e sim o caminho que percorremos em busca dela,ainda que, no fim, a encontremos dentro de nós.

quinta-feira, junho 04, 2015

Encontro improvável

(Adalgisa Nery)



Ela vivia a Ocidente, ele a Oriente. Ela era temperamental e emotiva, ele racional mas delicado. Ela, mulher imersa em letras, sem nada saber de números, ele imerso em números mas amante de letras. Talvez fosse isso, o amor às letras, que os fez, um dia, olharem-se com olhos despidos do todo o mal e com o brilho intenso das estrelas. 


terça-feira, junho 02, 2015

Atropelamento



Application For A Driving License

Two birds loved
in a flurry of red feathers 
like a burst cottonball,
continuing while I drove over them. 

I am a good driver, nothing shocks me.


Michael Ondaatje

Exame Para Carta de Condução

Dois pássaros faziam amor
num frenesi de penas vermelhas 
qual explosão de bola de algodão,
continuando enquanto eu os atropelava.

Sou um bom condutor, nada me choca.

Michael Ondaatje, tradução de Maria Eu

segunda-feira, junho 01, 2015

O dia D

(Edward Hopper)




Um dia não é a vizinha da frente, aquela que tem 85 anos e já nem sai de casa. Um dia és tu e estranhas(-te). Olhas-te de dentro para fora, habitualmente, e nada te derrota, nem sequer o amargo na boca pela manhã ou as agulhas que parecem vir de lado nenhum perfurar-te a carne. Percebes, então, que está na hora de o teu olhar se voltar de fora para dentro e, claramente, veres(-te).