segunda-feira, dezembro 08, 2014

Há uma mulher

(Persefoni Balkou)

Há uma mulher a morrer sentada
Uma planta depois de muito tempo
Dorme sossegadamente
Como cisne que se prepara
Para cantar

Ela está sentada à janela. Sei que nunca
Mais se levantará para abri-la
Porque está sentada do lado de fora
E nenhum de nós pode trazê-la para dentro

Ela é tão bonita ao relento
Inesgotável

É tão leve como um cisne em pensamento
E está sobre as águas
É um nenúfar, é um fluir já anterior
Ao tempo

Sei que não posso chamá-la das margens

Daniel Faria, in "Dos Líquidos"




Há uma mulher 
que se deixa morrer
sem nunca ser chamada

Ninguém parece saber
que uma palavra
poderia salvá-la

Há uma mulher
a quem nasceram
raízes de  castanheiro

No Outono vindo
dela nascerão frutos
protegidos por ouriços


Há um castanheiro
mulher feito fruto
fruto feito arma

Maria Eu 

11 comentários:

  1. Um blog intrigante! Instigante! Versos e textos que transportam a um mundo que prende, amordaça, e deixa apenas o sentir!
    Profundos em sua essência, belos na poesia que levam nas asas!
    A vez da Maria dá a perceber que é a voz de todas as mulheres!
    Simplicidade no template, até lúdico na primeira impressão, e complexidade se fazendo/desfazendo no correr dos olhos por todo esse espaço onde há uma mulher...
    (http://helena.blogs.sapo.pt)

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    1. Maria Helena, nem sei que dizer! Muito obrigada parece-me pouco...

      Beijinhos Marianos e muito obrigada, mais uma vez, pelas palavras e pela visita! :)

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  2. Boa noite Maria,
    Confesso que estremeci quando vi seus primeiros versos, nas minhas "atualizações". E chego aqui e deparo-me com grande poema - eta inspiração, Maria! Grande no tamanho e na intensidade. Um divino jogo de palavras.
    Uma mulher que se deixa morrer sentada do lado de fora duma janela... mas será ela que se deixa morrer, ou nós, na nossa inoperância, que a deixamos, morrer? Mas eis que se dá o milagre e da mulher morta brota um castanheiro que dará frutos - o milagre do renascimento. Empolguei-me. Tantas mensagens aqui. Amei.
    bj amg

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    1. Muito obrigada, Carmem, pelas gentis palavras. Apenas gosto de escrever e, de vez em quando, há mais inspiração. :)

      Beijinhos Marianos! :)

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  3. Fizeste-me lembrar a Hilda Hilst...Investigante. Ai Maria...Eu*
    Beijinhos...

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    1. Jasus, melher! Logo a Hilda Hilst de quem eu gosto tanto! Porquê?

      Beijinhos Marianos, Til! :)

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  4. Todas as mulheres estão a morrer
    Bem o sabemos
    que assim estamos desde que nascemos

    Não falemos então da morte
    pois que é tão certa

    Sabes?, por falares em arma...
    Plantei, em tempos, um castanheiro no meio da minha sala!
    E tão belos frutos deu...

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    1. Que seja sempre forte, o castanheiro da tua sala!

      Beijinhos Marianos, Rogério! :)

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    1. Ah, mas a árvore também é importante, e muito!

      Beijinhos Marianos, Agostinho! :)

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  6. Mulheres que fogem do Sol por imposição
    externa e cruel por terem nascido fora
    de um tempo onde solidão não era apenas
    ilusão de ser, nem ansiedade... Quem algum dia
    a escutou, ou a chamou a viver? A entendeu e abraçou para
    não sofrer?...
    Não "eu".

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