sábado, novembro 30, 2013

Definições




- Sinto-te como se fosses um fruto.
 - Como um fruto maduro? 
 - Sempre maduro, dando-se a trincar, suculento, macio, pronto a abrir-se em aromas e sabores intensos.
 - Tudo isso, sou eu? 
 - Sim, tudo isto e muito mais, porque um fruto não tem alma, é só corpo. Um fruto não reage, só deixa que o tomemos e o comamos, sem mais. Tu és muito mais do que um fruto. Tu és árvore, forte e segura, és folhagem fresca, és fruto sumarento, és Homem com coração terno e palavras intensas, és menino em brincadeiras pueris... 
 - E tu, és como?
- Insensata, insegura... mas intensa, sempre intensa, na orla da vertigem, no olho do tufão, onde me perco em corropios, girando, girando, cúmulo de pensamentos, sentimentos, paixão!

Santo António, o Casamenteiro

  San Antonio bendito,
         dádeme um home,
          anque me mate,
          anque me esfole.


    Meu santo San Antonio,
daime um homiño,
anque o tamaño teña
dun gran de millo.
Daimo, meu santo,
anque os pés teña coxos,
mancos os brazos.

    Uma mller sin home...,
ίsanto bendito!,
é corpiño sin alma,
festa sin trigo,
pau viradoiro
que onda queira que vaia
troncho que troncho.

    Mais, em tendo um homiño,
ίVirxe do Carme!,
non hai mundo que chegue
pra um folgarse.
Que, zambo ou trenco,
sempre é bo ter un home
para um remédio.

    Eu sei dum que cobisa
causa miralo,
lanzaliño de corpo,
roxo e encarnado,
caniñas de manteiga,
e palavras tan doces
qual mentireiras.

Por el peno de día,
de noite peno,
pensando nos seus ollos
color de ceo;
mais el, xá doito,
de amoriños entende,
de casar pouco.


    Facé, meu Sant Antonio,
que onda min veña
para casar conmigo,
nena solteir
que levo en dote
uma culler de ferro,
carro de boxe,

    un irmanciño novo
que xá tem dentes,
unha vaquiña vella
que non dá leite...
ίAi, meu santiño!:
face que tal suceda
cal volo pido.

    San Antonio bendito,
dádeme um home,
anque me mate,
anque me esfole,
que, zambo ou trenco,
sempre é bo ter un home
para um remédio.


Rosalía de Castro 



Para as moças que queiram saber de antigos usos em noite de Santo António, o Casamenteiro:
- Se queres saber o nome daquele que te vai levar ao altar põe os nomes daqueles por quem sentes alguma inclinação em papéis dobrados, dentro de uma bacia com água. Deixa a bacia de noite, ao relento. Na manhã seguinte, o papel com o nome ter-se-á aberto.
- Parte um ovo, e despeja a clara num recipiente com água. Ficando ao relento, na noite de Santo António, vai formar uma letra, um desenho, alguma pista para quem vai ser o homem da tua vida.

sexta-feira, novembro 29, 2013

Insensatos

                          (Magdalena Sadziak)

Sem nunca se terem encontrado, perderam-se. 
Havia música e a música sempre os fazia insensatos...




quinta-feira, novembro 28, 2013

Da paixão

                       (Astor Salcedo - Lost innocence)

"(...) Bartolomeu debruçou-se sobre mim e disse-me ao ouvido:
- Disse-me...
- Não, nem vou repetir...
Senti-lhe o perfume, um aroma a tabaco, um vago lume a pimenta, a sândalo, a maresia, e pensei, ah, Corto Maltese devia usar um perfume assim. Essa combinação perdeu-me; o piropo estúpido, o calor da voz, o perfume exótico. Uma explosão nas veias de dopamina, neuroepinefrina e feniletilamina. O coração aos saltos. A pele húmida. O rosto a arder.
(...)
Diz-se de alguém, quando desmaia , que perdeu os sentidos. Eu, naquele momento, ganhei sentidos. Aconteceu-me o inverso de um desmaio: acordei.
Eu adormecia a pensar em Bartolomeu e acordava a pensar nele. Durante esses meses, a propósito, deixei de tomar comprimidos para dormir, e voltei a sonhar. Descobri, sem surpresa, que partilhávamos sonhos. Sonhávamos as mesmas coisas, nas mesmas noites (...)"

José Eduardo Agualusa, in Barroco Tropical


quarta-feira, novembro 27, 2013

Tá mar

                         (David Bates)

Saem em botes com nomes de santas e santos; "Senhora da Agonia", "Senhor dos Aflitos", "São Cristóvão", ou de mulheres que deixam em terra; "Maria", "Helena", "Marta". Do mar sabem tudo e não sabem nada porque o mar não se sabe nunca. Alguns já viraram o Cabo Bojador em bacalhoeiros onde não querem voltar. São donos de si, ainda que nada valham no mar encrespado que já levou o Toino da Serena, o Manel da Teresa e o Joãozinho Fontes, tão novo que nem se tinha estreado com mulheres. São pescadores, homens com sal nas mãos e marés no coração.

(Já não há Estaleiros Navais em Viana do Castelo. Os navios e os  bacalhoeiros não voltarão a fazer parte da paisagem.Os marinheiros dos pequenos botes não terão mais inveja dos grandes navios.)

terça-feira, novembro 26, 2013

Boca

Como poderemos beijar essa boca que apenas se anuncia
com a suave tristeza de quem ainda ama as sílabas do sangue
ou a lua cálida das velas?
Essa boca talvez seja apenas uma boca de sombra
e quase uma boca de cal
mas a sua forma ainda é uma margem estremecida
uma erva que respira
sobre a pedra azul da melancolia
Que palavra poderá dar um espaço à sua sede
como uma guitarra que lentamente se acende na noite?
Mas no peito frágil como um pássaro palpita ainda um astro
vibrante como uma haste inclinada pelo vento
Ela acaricia a sua crisálida de areia
como se fosse o corpo amante ou uma palavra preciosa
Não posso desenhar o movimento do seu coração
nem encontrar a palavra que fosse um beijo vacilante mas
                      
O meu pulso no entanto estremece com o rumor de um sangue que desejaria ser a luz da sua sede

António Ramos Rosa, in «As Palavras», Campo das Letras, 2001






O que tem essa boca que só a quero ter na minha boca?

segunda-feira, novembro 25, 2013

Segredo



        (Eva Christin Laszka)

"A sua mente estava ainda a descansar na felicidade do encontro na floresta (...) Havia uma doçura infinita na sua intimidade secreta. Amá-la, pensava ele, era, para ele, como lavar o rosto e as mãos, ou como mergulhar num riacho límpido, calmo, que se renovava permanentemente, e estava certo que o seu caminho para o riacho e o próprio lugar onde nadava estivesse escondido do mundo inteiro."

Karen Blixen, in Novos Contos de Inverno

Guardavam o amor em segredo e o segredo guardava o amor.

Receita para afugentar a tristeza

materiais para confecção de um espanador de tristeza 

tinha aprendido que era muito importante criar desobjectos.
certa tarde, envolto em tristezas, quis recusar o cinzento. não munido de nenhum artefacto alegre, inventei um espanador de tristezas.
era de difícil manejo – mas funcionava.

Ondjaki

                           (Fire - Zena Holloway)

Tome-se a tristeza na palma da mão. Olhe-se de perto. Encha-se o peito de ar e sopre-se. Sopre-se, com muita força, a tristeza para longe. Sacudam-se as mãos meticulosamente, não vá algum grão ter ficado para trás. 
Tome-se, agora, a alegria na palma da mão. Feche-se a mão com força até que ela se funda na pele. 

sábado, novembro 23, 2013

Falar a alma

"- Comigo você falará sua alma toda, mesmo em silêncio. Eu falarei um dia minha alma toda, e nós não nos esgotaremos porque a alma é infinita. E além disso temos dois corpos o que nos será um prazer alegre, mudo, profundo." 

 Clarice Lispector, in "Uma Apredizagem ou O Livro dos Prazeres"


     (A gaivota, Nadir Afonso)


Falar a alma com o corpo todo. Dizer o corpo com a alma toda.

sexta-feira, novembro 22, 2013

Posse

             (Shaina Craft)

Arde o sexo
Morde o sangue
Lavra a boca 

Arde o sangue 
Morde a boca
Lavra o sexo

 

Ária

Ma rendi pur contento
della mia bella il core,
e ti perdono, amore,
se lieto il mio non è.

Gli affanni suoi pavento
più degli affanni miei,
perché più vivo in lei
di quel ch'io vivo in me.

 

Vincenzo Salvatore Carmelo Francesco Bellini (Catânia, 3 de Novembro de 1801 — Puteaux, 23 de Setembro de 1835). Aos dezoito meses cantou uma ária de Valentino Fioravanti. Aos três anos já tocava piano com desembaraço. O génio que transformava a música em beleza pura.

quinta-feira, novembro 21, 2013

quarta-feira, novembro 20, 2013

Passión



Nada me arrebata mais do que o tango das palavras em que me danças.




























(Man Ray-Rayograph kiss.     “I do not photograph nature. I photograph my visions.”)

terça-feira, novembro 19, 2013

Don't cry

 (Brooke Shaden)

"-Don't cry me a river!"
"-Why not?"
"-Because I may sail away on it!"

O Gato mais gato! (Breve interregno para merecida homenagem.)

O meu gato favorito faz 35 anos! Só ele me faria alterar a linha deste recanto!

Nãããããõ! Não é o Jake Gyllenhaal!


Siiiiiiiiiiiiiiiiiiim! É o Garfield! Gato mais gato não há!

Tropel

Quente, o teu coração quente
pulsa no lusco-fusco.
Palpita em toda a casa
deserta que nos vê.
Galga as sacadas altas,
corre nas avenidas.
É o silêncio do amor
que abre as veias na tarde...

Quente, o teu coração quente,
é uma estrela no escuro
que a pele das tuas mãos
prolonga em minha pele...
quem te amou e é já morto
renova a primavera.

Oh! doce comunhão
de desejo e infinito,
de saudades e de céu,
de paraíso e grito!

Água clara e tremente
a boca, a sede, a fonte.
Flor de sangue à corrente
o teu coração quente.
Natércia Freire, in «366 Poemas que falam de Amor»

                (Nadia Beltei)

Cavalo em tropel, dispara o coração pelas dunas do peito. O teu vem persegui-lo, com igual velocidade, fustigado p'lo sangue que a ambos invade. Vermelhos, veloses, vencedores iguais, da corrida que acaba em suspiros e ais.

Maria Eu

segunda-feira, novembro 18, 2013

domingo, novembro 17, 2013

Alimento da saudade

Ilude a saudade enviando-lhe fotografias aparentemente banais.

Às vezes, embrulha-as em poesia com banda sonora.

“amarelas são as tardes”

são amarelas as tardes quentes de ti

teu corpo em espera ligeira nem pluma nem ave cântico de adormecimento oblíqua nuvem num céu de breve quentura e o sal também vem até onde a lava te celebrar e o amarelo da tarde restar tom de manteiga com açúcar derretido na pele no chão da minha boca espasmo delicioso amor intranquilo beijo sem lábios na ternura de palavras faladas amarelas são as tardes em que o meu corpo maduro te descobre transparente maracujá quente

quente de mim


Ondjaki

sábado, novembro 16, 2013

Faz de conta

Faz de conta que é Junho
Faz de conta que tomamos chá de rooibos
Faz de conta que vamos ver o mar
Faz de conta que comemos torradas
Faz de conta que somos felizes

         (Max Ernst - The Kiss)

Faz de conta que não é a fazer de conta.
Faz de conta...

Jardim das Delícias



                       (Pormenor do Jardim das Delícias, Hieronymos Bosch) 

"- Tenho o teu nome inscrito em cada uma das terminações nervosas do meu corpo! sussurrou-lhe ela."
"- Detenho-me nelas, a entrançá-las, fazendo rendilhados de sensações com elas, tecendo delícias, como os ramos entrelaçados num certo jardim! afirmou-lhe ele."

sexta-feira, novembro 15, 2013

Melancolia



                                 (Flyn Vibert)

Abriu os braços com a ternura toda que um abraço pode ter mas não havia ninguém para abraçar. Foi então que os cerrou em torno de si mesma, num amplexo de faz de conta.

Canibal

Quisera ser iguaria de canibal. Comer-me-ias aos pedaços e, assim, nunca mais morreria. Permaneceria no teu corpo, correria feito sangue nas tuas veias azuladas...

Quisera ser canibal. Comer-te-ia aos pedaços e, assim, nunca mais te perderia. Permanecerias no meu corpo, correrias feito sangue nas minhas veias, aos borbotões...

quinta-feira, novembro 14, 2013

Da Poesia maior

"Nada pode ser mais complexo que um poema,
organismo superlativo absoluto vivo,
apenas com palavras,
apenas com palavras despropositadas,
movimentos milagrosos de míseras vogais e consoantes,
nada mais que isso,
música,
e o silêncio por ela fora."

Herberto Helder, in Servidões


Azul. Escuro, como deve ser para Herberto. E preto. Uma árvore. Azul e preta, claro. Só as letras são brancas. Autor, título, editora. Dentro? Dentro são os poemas e "nada pode ser mais complexo do que um poema". Mas nos poemas há "música, e o silêncio por ela fora".

terça-feira, novembro 12, 2013

Prontidão

"(...) Dona Luarmina. Nunca ninguém foi tão vizinho. Porque ela quando não me está nas vistas está-me nos sonhos. Sempre e sempre essa polposa e carnudona mulher.(...) Em tempos, ela acendeu prontidões masculinas. Mas agora, está apagada. Não para mim que me acendo em sua presença e ardo em sua ausência.
Ao fim de cada tarde, me encaminho para sua casa. Engraçado, o seu lugarzinho: só tem traseiras. Quase como a Dona. Porque a gente para o contornar nem tem que dar a volta. Chega-se lá e estamos logo atrás. Sento-me num velho tronco e fico olhando a mulher desfolhando~se:
- Mar me quer...
Depois digo para mim: quem dera eu meter a mão nos remetentes dela! Uma dessas noites, até sonhei que me aproximava do assento dela e lhe desenrolava falas (...) 
Enquanto falava já minha mão viajava naquelas gorduras vivas dela, comboiozinho doido ondulando pelas topografias do seu assento. Eu andava de bicos de mãos pelas reentrâncias dela."  

Mia Couto, in Mar me quer


          (Christos Tsimaris)

Luarmina sabia que acendia a prontidão do rapaz. Sentada na varanda, vestido vermelho, decotado, curto, a deixar as coxas grossas ao sol, ela sabia... Fingia ignorá-lo enquanto desfolhava flores, tão vermelhas como o seu vestido, deixando o ar perfumado e o chão atapetado para se deitarem juntos, nos sonhos. 
Maria Eu

Ternura


Chegas com gaivotas
veleiro contra o vento
e tudo o mais sobra.
 
Cerro os olhos:
dentro das pálpebras
o desenho do teu rosto.
 
Teu corpo,
um aceno às aves
que alto voam.
 
Sumptuosa coberta de seda
contra a minha pele, a tua.
 
Com a sombra das árvores
confunde-se a seiva
e a sede que nos uniu.
 
Ficaram por colher
em tuas mãos as cores
exultantes do Verão.  
 
Lá fora a minha solidão
vagueia com a tua ausência.
 
Levo a mão ao rosto
para enxugar uma lágrima tua.
 
No teu rosto
leio com ternura a ruína
que ameaçou o meu. 

Flor Campino

                    (Francis Picabia)

Tecem-se laços  em toques rendilhados de ternura. Abraços com poemas de permeio. Chove lá fora. Porém, os pássaros ainda cantam, abrigados na copa das árvores.



segunda-feira, novembro 11, 2013

Metáfora

                 (Tom Eckert)

"O reino dos céus, o reino da justiça é uma mentira. Cada atributo do Deus deles (João e Paulo, Tiago e Pedro) é uma mentira. Justo: mentira. Equitativo: mentira. Único: mentira. Imortal: mentira. E também os livros deles são mentirosos, pois prometem a mentira, prometem o paraíso, e o paraíso é uma mentira, pois está nas mãos deles, pois são eles que estão às portas do paraíso, os seus querubins armados de um gládio de fogo, os seus juízes com a balança mentirosa."

Dailo Kis, in "Enciclopédia dos Mortos"


domingo, novembro 10, 2013

Solidão


         (Kate Zambrano)

"-Sabes o que é a solidão?"
"-Sei! É quando olho para mim e me vejo despida por dentro."

Chá

                           (Jean Metzinger, Le goûter)
 
Olharam-se timidamente por sobre o vapor que se evolava do Gyokuro que ela lhe ia servindo do Iwachu. Ele pousou as mãos sobre as dela, dizendo: Um Gyokuro fica melhor servido a quatro mãos.

sábado, novembro 09, 2013

Metades

"O melhor são as manhãs; das estações,
É o Verão. Ouvi certa vez de mim
A metade acordar, outra metade dormia.
"Ainda na cama. Deixei ir livre o espírito
E pus-me em dia comigo, no jardim
Onde craveiros se abriam no topázio da alva.
Shade em camisa e um só sapato.
Percebi que também essa metade 
Dormia profundamente; riram ambas
E acordei, rompia o dia, na ama tranquilo,
Os pardais ali andavam, de roda de um só
Sapato! Chancela secreta, marca de Shade
Mistério, milagre, lamento de solstício."

Vladimir Nabokov, in Fogo Pálido
        (Louise Aldridge)

De quantas "metades" somos feitos?
Que mistérios escondemos em cada uma delas?
Unos por milagre...

Sigo em frente

                                             (David Robinson)


"Que nenhum filho da puta se me atravesse no caminho! O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim! Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo, deixa-me ir… É comigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra Infinito… Prá frente! Meto esporas!"

Fernando Pessoa " Saudação a Walt Whitman", Álvaro de Campos

sexta-feira, novembro 08, 2013

Perséfone

(persephone by molotovgtm on deviantart)

Perséfone, a menina doce que colhe flores e faz a Primavera explodir em beleza e alegria que dá lugar, a espaços, à mulher cruel que atrai o frio e o gelo do Inverno. 

quinta-feira, novembro 07, 2013

Ser para lá de ter

"Porque é que procuras ouro aqui?"
(...)
"O ouro não vale nada, não se deve receá-lo. É como os escorpiões, que só picam quem os receia."
Disse isto com simplicidade, sem sobranceria, como se falasse para si própria.
 "Vocês, os do grande mundo, pensam que o ouro é o que há de mais forte e desejável, e é por isso que andam sempre em guerras. Em toda a parte, para possuir ouro, as pessoas estão dispostas a morrer."
São palavras que põem o meu coração a bater desordenadamente (...).
Mantenho a sua mão na minha apertada com força para lhe sentir todo o calor, e respiro-lhe o hálito nos lábios. (...) Suponho que pela primeira vez saboreio o tempo que passa sem impaciência nem desejo, mas com tristeza, ao pensar que tudo isto se irá e não mais vai voltar.

J. M. G. Le Clézio, in "O Caçador de Tesouros"

                                                   (Lovers by Irina Vitalievna Karkabi)

Ser para lá de ter! De que vale o ouro todo do mundo se não prolonga os momentos felizes?

quarta-feira, novembro 06, 2013

O Sr. Lynch



  "As ideias são como peixes. Podemos encontrá-los à superfície das águas, mas lá em baixo, nas profundezas, é que eles são maiores. E sabem qual é o principal isco para os apanhar? O desejo. Temos que desejar as ideias. É o desejo que traz cá para cima esses peixes graúdos." 
David Lynch

 (Richard Ansett - David Lynch at the Dorchester Hotel, London, 1999)

Sophia

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.


in “Obra Poética”
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Sophia de Mello Breyner nasceu a 6 de novembro 1919. Dizem que hoje faria anos. Eu digo que Sophia faz hoje anos.

terça-feira, novembro 05, 2013

Pele

Amor

Sólo la voz, la piel, la superficie
Pulida de las cosas.

Basta. No quiere más la oreja, que su cuenco
Rebalsaría y la mano ya no alcanza
A tocar más allá.

Distraída, resbala, acariciando
Y lentamente sabe del contorno.
Se retira saciada
Sin advertir el ulular inútil
De la cautividad de las entrañas
Ni el ímpetu del cuajo de la sangre
Que embiste la compuerta del borbotón, ni el nudo
Ya para siempre ciego del sollozo.

El que se va se lleva su memoria,
Su modo de ser río, de ser aire,
De ser adiós y nunca.

Hasta que un día otro lo para, lo detiene
Y lo reduce a voz, a piel, a superficie
Ofrecida, entregada, mientras dentro de sí
La oculta soledad aguarda y tiembla.


Rosario Castellanos

(Leora Honeyman)
 
 
 
 
 
Pele, terminações nervosas, corpo. Pele, as tuas mão na minha pele, as minhas mãos na tua pele. Calor, cor, suor. Pele.

Descoberta

Descobriu que lhe sobrava alma... 

       (Eva Christin Laszka,  Longing)

segunda-feira, novembro 04, 2013

Meu amor

Em ti começo e em ti acabo, meu amor...

         (Eric Fischel)

“Aceita as minhas mãos errantes e deixa-as andar
Pela frente, por trás, pelo meio, por cima, por baixo...” 
John Donne in Elegie

Coração

             (Erwin Olaf)

Retalham-lhe o peito. Não sabe se para lhe roubarem o coração, se para lho cortarem em pedaços, deixando-o ali, sem mais préstimo.

domingo, novembro 03, 2013

Serpente


En mis sueños de amor, yo soy serpiente!
Gliso y ondulo como una corriente;
Dos píldoras de insomnio y de hipnotismo
Son mis ojos; la punta del encanto
Es mi lengua... y atraigo como el llanto!
Soy un pomo de abismo.

Mi cuerpo es una cinta de delicia,
Glisa y ondula como una caricia...

Y en mis sueños de odio, soy serpiente!
Mi lengua es una venenosa fuente;
Mi testa es la luzbélica diadema,
Haz de la muerte, en un fatal soslayo
Son mis pupilas; y mi cuerpo en gema
Es la vaina del rayo!

Si así sueño mi carne, así es mi mente:
Un cuerpo largo, largo de serpiente,
Vibrando eterna, voluptuosamente!


Delmira Augustini, in El Rosário de Eros


                       

































(Andre de Diesnes)

Serpenteando em esses sincronizados  e sensuais, sobe a serpente sibilando na antecipação de sexo sísmico.

Deixa...

Deixa que inscreva no teu corpo, a tatuagem do amor total.

                           

































 (Egon Scheile)

Deixa que os meus lábios definam cada traço do desejo.

Ira

[a ira]


eu digo: abre as pernas.
mas os meus lábios não se movem.

eu posso dizer: cospe um filho
com a minha língua dentro da boca.

eu posso morrer num funeral, que é
uma morte natural, ou nem morrer.

eu posso escrever a ira a três mãos:
a mão do homem, a mão de deus, a
minha mão. posso escrever a paixão
a três mãos, fazer amor a três mãos.

eu volto a dizer: abre as pernas.
e a minha voz é só o movimento
oblíquo das palavras.

mas se eu disser com a mão do homem,
com a mão de deus, e com a minha mão,
abres as pernas?


in ' um cão em cada dedo '
in ' revista inútil ', n.º 1



         (Paula Rego)

E ele diz: abre as pernas
com a voz tensa de ira.
E ela replica: a ira não abre pernas,
só o amor.


 

sábado, novembro 02, 2013

Costura

                                (©Caryn Drexl)
 
Rasgou-se-lhe o peito em fiapos e ela tentou costurá-lo.
Faltaram-lhe, porém, as mãos que lhe sabiam os rasgões.

Viagem

Quando lhe tomou as mãos nas suas pela primeira vez, era adeus que lhe dizia.

Elogio do livro

É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo 'eu' entre nós e nós?


Manuel António Pina

                            (Pietro Rotari (1707-1762), Girl With a Book)

Páginas feitas pele, letras feitas olhares intensos e suspiros apaixonados, histórias que pulsam ao nosso ritmo e nos fazem pulsar com elas. Livros.

sexta-feira, novembro 01, 2013

Direcção única

         

"A direcção única não é assim uma coisa tão recente como toda a gente o pode imaginar à primeira vista. Muitíssimo antes de haver automóveis, carruagens e carroças, muitíssimo antes mesmo de ter sido inventada a própria roda, já hevia no mundo a direcção única.

Ela já data daquele dia memorável em que Deus, depois de ter criado o Mundo, deu a alternativa ao Homem.

Mas entre Deus e o Homem há uma diferença dos diabos.

Entregou Deus ao Homem o nosso planeta inteirinho, com todas as suas maravilhas, com todo o esplendor de todas as suas múltiplas fortunas, e ao confiar-lhe desta maneira todas as riquezas da terra, disse-lhe:
- Toma para ti, tudo isto tem uma direcção única.
E levou ao máximo a sua lealdade de Deus para com o Homem, avisando-o como bom e verdadeiro amigo, de que havia também direcções proibidas e, por conseguinte, que tivesse muito cuidadinho com elas."

José Almada Negreiros, in “6 texto de intervenção, Obras Completas”

              (tapeçarias de Portalegre reproduzindo obras de Almada Negreiros)

A bondade de Deus é infinita!  Um planeta  inteirinho onde o Homem pode fazer tudo, desde que na direcção por Ele indicada como certa.
God, my man, you're the best!